Desmistificando o que sobrou do 11 de setembro  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , , , , , , , ,

É estranho viver em um mundo em que você diga "Prefiro George W. Bush a Osama bin Laden" e uma moça cheia de fotos de biquíni no álbum "VERÃO!!!" te olhe torto por isso. Mas tal insensatez tem explicação.

Há 10 anos, as aulas foram interrompidas para que se pudesse comemorar a destruição das torres gêmeas. No dia seguinte, os professores de História e Geografia faziam debates, prognósticos que deram com os burros n'água e explicações sobre os atentados que revisavam aulas sobre a política externa americana. É mais ou menos como explicar as motivações de Charles Manson observando a vida de suas vítimas - ou explicar a queda de um avião analisando a dureza do chão.

wtc_119_boomerang.jpgEra uma atitude compreensível, naqueles pré-históricos anos de 2001 em que nem 3% das pessoas que usavam internet no Brasil conheciam o Google. Quem não viveu essa época não sabe a dureza que era fazer trabalho copiado da internet sem Google, usando o Cadê (perguntem aos seus avós). Nós sabíamos muito bem que nossos professores nunca tinham ouvido falar em al-Qaeda, em Osama bin Laden, que não sabiam qual era a capital do Afeganistão (se nós não sabemos hoje, 10 anos de doses cavalares de internet depois). Mas nós fingíamos que eles eram algo como curandeiros sabe-tudo, ou que o que eles imaginavam que sabiam valia a pena mesmo assim.

Só que aí nós crescemos, percebemos que em menos de 4 anos de faculdade já podemos dar a mesma aula que resume o mundo a um bandido e um mocinho. Uma aula em que todas as explicações estão prontas, antes dos fatos. Mas, algum dia, bate uma vontade de conhecer os tais fatos, essas minorias oprimidas.

Claro que não conheço bem os tais fatos. Mas aqui vai uma pincelada no 11 de setembro focado ousadamente no outro lado: em quem provocou o atentado.

Osama bin Laden: o islã explica

Osama bin Laden não é um maluco, é um extremista. Não é um desvio da norma, uma voz solitária: sua interpretação do islã, felizmente não majoritária, ainda é uma interpretação "possível". Se a jihad, a guerra santa muçulmana, pode ser interpretada como uma "guerra espiritual" individual, nada impede que também se interprete como uma luta de sangue derramado contra os não-muçulmanos.

Em 1998, 2 anos após uma declaração de guerra pública, bin Laden solta a fatwa "Frente islâmica Mundial Contra Judeus e Cruzados", subscrita por autoridades teológicas capazes de definir o que é "legítimo" nas leis muçulmanas.

Isto, claro, não foi invenção de bin Laden. a própria Arábia Saudita foi criada pelo chefe da tribo dominante em Dariyya, Muhammad ibn Saud (ahn-ahn? pegou?), unindo meninas-noivas.jpgao líder espiritual Muhammad ibn Abd al-Wahhab, conseguindo dominar inclusive Meca e Medina. Essa doutrina, o wahhabismo, uma versão mais "pura" e guerreira do islã, seria dominante em muitos países, sobretudo os mais pobres e incultos - como o Afeganistão e o Iêmen, onde meninas se casam aos 5 anos. O regime talibã afegão, que deu abrigo a al-Qaeda, conseguiu a façanha de brigar com os wahhabistas por serem muito tolerantes.

Não custa também lembrar que a sociedade muçulmana estava longe de ser fechada como hoje. As representações medievais e até vitorianas dos mouros e sultões era quase de depravação, com seus haréns e suas odaliscas - e o islã foi guardião da cultura grega, tendo uma ciência avançadíssima enquanto a Europa penava sob a força da Igreja, da Inquisição e do pensamento atrasado. Não foi senão em fins do séc. XIX que o islã, tentando atingir um grau de puritanismo europeu, começa a perseguir a sexualidade (vide o magistral livro de Peter Stearns, História da Sexualidade, ed. Contexto).

Os americanos não armaram a al-Qaeda

Apesar de ser adoravelmente fácil atribuir os atentados à política externa americana, bin Laden odeia tudo o que não seja o islã. Municiou milícias contra a União Soviética, e seus pronunciamentos só apontam os EUA como "inimigo" por serem "materialistas ateus" e sua política ajudar Israel, que ficou com uma mesquita que é o terceiro lugar mais sagrado para o Islã. Suas declarações tratam como inimigos quaisquer regimes "comerciais", volvendo seus olhos para Rússia, Índia, China (se o Brasil encabeçasse a lista, formaria uma sigla bem utilizada hoje em dia). Aliás, com nosso samba e futebol, bin Laden fatalmente trataria o Brasil como inimigo.

No entanto, ter um "inimigo comum" fez com que a estranhíssima agenda de bin Laden ganhasse simpatizantes mundo afora. Simpatizantes que o próprio Osama não iria querer vivos. Geralmente essas pessoas acham que o terrorismo é melhor do que a "desigualdade social" da política americana.

O que nos leva a um ponto importante: bin Laden, filho rico, ganhou grande destaque na sociedade islâmica enquanto a Casa Branca ainda não sabia o que era al-Qaeda, ainda no governo Clinton: afinal, largou sua casa abastada e foi defender sua fé (ainda que por meios questionáveis na sociedade islâmica) nas inóspitas montanhas afegãs. Numa sociedade profundamente ligada à propriedade (tal como a judaica), que trata até as mulheres como posse (sequer há palavra distinta para "marido" e "dono" em árabe), não seria o "neoliberalismo" americano ou o colonialismo europeu que irritaria bin Laden - basta ver as fotos de sua residência.

Não deixa de ser curioso, portanto, que os maiores críticos ocidentais dos EUA e que mais defendem as "razões sociais" do extremismo islâmico sejam ateus ligados à esquerda.

Sua primeira contribuição como guerreiro em fins dos anos abdullah_azzam.jpg70 foi reunindo recursos para os mujahedin afegãos lutando contra os soviéticos. Assim surge o primeiro mito, de que a al-Qaeda seria "criação da CIA". Mas se os EUA contribuíram para expulsar os soviéticos do Afeganistão, foi por um acordo com a Arábia Saudita, que financiava outro montante idêntico. O ideólogo saudita que assim planejou foi Abdullah Yusuf Azzam, com quem bin Laden estudou e, posteriormente, fundou a al-Qaeda (os dois romperiam apenas em 86, e Azzam seria morto em um atentado inexplicado em 89, possivelmente a mando do próprio bin Laden). Por sinal, o dinheiro americano não era distribuído diretamente aos sete grupos que compunham o movimento mujahedin, ficando a distribuição a cargo de autoridades sauditas e paquistanesas.

O próprio bin Laden, rico, financiou os mujahedin, além de captar recursos no Golfo Pérsico. Assim, se algum dinheiro americano acabou indo parar nas mãos de alguém que posteriormente fez parte da al-Qaeda, esse alguém teve de virar de lado para adentrar no grupo.

Osama e Azzam estabelecem o MAK - Bureau de Serviços Afegão - e estabelecem uma rede mundial de apoio a jihad, tendo 52 "escritórios" só nos EUA. O que a al-Qaeda trouxe de mais novo ao fundamentalismo islâmico foi ser uma rede global de extremistas, mesmo começando em 88, antes da internet. Terrorismo global em um mundo globalizado. Seu objetivo era restabelecer a grandeza do islã, visto como incompatível com a modernidade, a individualidade, o materialismo e a liberalidade modernas. Azzam, assim como um dos pensadores islâmicos mais influentes do século, Sayyd Qutb, via nos EUA o cúmulo da modernidade - e não de uma "injustiça social" promovida por sua política externa. Basta ver que Osama escolheu bem o Afeganistão como palco da al-Qaeda, após rachar com os wahhabistas da Arábia Saudita: tal qual o Iêmen, um país pobre e inculto, em que, depois de 10 anos e 225 mil mortes, 92% da população desconhece o 11/9.

A verdadeira "opressão colonial" promovida pelos EUA, para Osama bin Laden, foi Israel ter ficado com uma mesquita importante em Jerusalém.

A guerra ao terror deu certo

Um dos motivos da crença de Osama em poder derrotar o Ocidente ateu e imoral foi a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão por Gorbachev: para guerreiros tribais, um sinal de fraqueza moral e covardia. Extremistas, de qualquer matiz de pensamento, preferem sempre lutar até as últimas forças.

A al-Qaeda não conseguiu realizar mais nenhum atentadocartacapital_binladenvenceu.jpg em solo americano. Como bem lembrou Guilherme Fiuza, sequer o "pânico" seria descrito assim por alguém que não freqüente uma faculdade de Humanas - as pessoas vão trabalhar e fazem marchas pelos seus direitos sexuais sem nem lembrar do terrorismo. Pior: nem as revoltas muçulmanas seguem o modelo de bin Laden - não importa o quanto a Carta Capital chore por isso. Afinal, nada demonstra a derrota de bin Laden mais claramente do que a primavera árabe. Os muçulmanos "sofrendo injustiças do Ocidente" e ainda sob governos ditatoriais aliados dos EUA (a grande questão da diplomacia americana daqui pra frente), justamente o "inimigo próximo" de que Osama tanto falava em seus pronunciamentos, usaram um método que a al-Qaeda odiaria, e, "traidores", se aliam justamente com o Ocidente.

Existe um método fácil de derrubar um ditador teocrático anti-ocidente: não torre fortunas com gastos militares (o maior erro de George W. Bush foram ann coulter invade their countries.jpegseus gastos militares com a privatização do Exército, como demonstrei no Implicante), muito menos em agências de inteligência como a CIA, que só geram teorias da conspiração doidivanas, mas que na realidade só fazem trapalhada em 90% de suas operações (vide História da CIA - Um Legado de Cinzas, de Tim Weiner). Compre um milhão de iPods e hambúrgueres de fast-food e dê de graça pra população local. Pague hackers para acabarem com as restrições à internet no Irã ou mesmo na China. Que Kadafi ou Ahmadinejad conseguiria sobreviver a uma população que conhece as delícias do mundo ocidental, como o Urubudsman™?

Bush soube bem disso. Promoveu diálogo com vários governos dispostos a dialogar (o que não inclui o regime talibã que não entregou a al-Qaeda por "hospitalidade" islâmica). Com os primeiros contatos com sociedades ocidentalizadas, o Cairo derrubou Mubarak, a Líbia derrubou Kadafi, a população iraniana reclama. Ou se conclui que a política externa americana deu seus primeiros sinais de sucesso no séc. XXI contra os "inimigos", ou se atribui tudo ao mero acaso.

O Iraque, portanto, foi uma exceção. Por mais complicado que seja defender a guerra, os mecanismos para sua concretização não foram mera vontade individual. Era uma nação com histórico de tráfico de armas de destruição em massa, invasão dos vizinhos (não foi senão o próprio grupo de bin Laden que financiou a defesa do Kuwait, temendo uma proliferação no Golfo Pérsico de socialismo baath sunita, o regime de Saddam, considerado traidor) e uma das mais brutais violações dos direitos humanos recentes. É comum se olhar para o Iraque como "a política externa americana", sendo que ela envolve 189 países, muitos deles ditaduras teocráticas muçulmanas. A política, na verdade, calcou-se no diálogo com quem queria dialogar, e foi exatamente o diálogo que irritou Osama.

Foi a aproximação com os EUA que fez bin Laden romper com a Arábia Saudita, perdendo a cidadania e indo se refugiar no Sudão, e depois no Afeganistão. O pacto de Oslo, que firmou a paz entre Israel e Egito e pôs Mubarak no poder, rendendo um Nobel da Paz para Anwar al Sadat, também foi demonstração de fraqueza. E como é que Saddam Hussein ficou sem suas armas de destruição em massa? Justamente pelo apoio americano a regimes islâmicos que estavam na rota do tráfico de armas - seu maior erro até hoje foi NÃO ter colocado o Irã na mira.

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Enfim, sempre é fácil tentar enxergar a política americana como "imperialista", que tenta impor seus valores à força - e acabe-se defendendo justamente quem mais procura impor valores mesmo que precise matar a população civil para isso. Uma breve olhada para o lado de lá da cortina mostra que o mundo, apesar de tudo, é sempre mais complicado do que as explicações que temos para ele.

fonte: Vasco Rato, Compreender o 11 de Setembro - Dez anos depois, ed. Babel, 2001. Leitura rápida, baratinha e obrigatória.