A greve nunca é plena – Mata a alma e envenena  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , ,

A Justiça do Trabalho do Mato Grosso mandou suspender a veiculação de uma propaganda de TV que relacionava greves a aumentos de tarifas públicas e impostos, afirma Rodrigo Vargas na Folha. A notícia é tão chocante que resolvi tirar o meu blog da greve que o acomete para poder comentá-la. Com 28 seguidores para nenhum post em 5 meses, já posso concluir que tenho mais audiência que a milionária TV Lula do Franklin Martins.

Entender o mercado é uma tarefa bastante custosa, mas a greve explica alguns de seus detalhes que passam despercebidos em uma teorização básica. O dinheiro não é o fim almejado pelo trabalho - ele é apenas o meio de troca pelo resultado do trabalho de outrém. O trabalho de um indivíduo, assim, não pode ser medido sozinho, sem conexão com o trabalho de outras pessoas da mesma sociedade. É a única razão cabível para o dinheiro ser auferível em números.

GREVE_CORREIOS_RJ_LULA.jpgSe esta verdade é auto-evidente, é constantemente ignorada na visão política e econômica (se é que se pode falar desta última) da maioria das pessoas. É ignorada tanto nas teorias inflacionárias adoradas pelo governo e os intelectuais seus cupinchas, que imprimem moeda sem correspondente aumento na produção, quanto na expansão desenfreada do crédito, ou a teoria sobre o trabalho que o avalia pela sua produção individual focada na mão-de-obra, sem analisar as trocas decorrentes.

Se as teorias econômicas mais populares se esquivam de lidar com as conseqüências mais inescapáveis deste fato ao manterem-se no virginal e imaculado reino das idéias platônico, sua aplicação prática acaba sempre precisando fazer alguma gambiarra para poder encarar o problema. Boa parte da discussão econômica mundial diz respeito a entender como conciliar a precificação e o trabalho de um com todas as variáveis inapreensíveis do trabalho de cada um dos outros em uma sociedade.

A greve é uma dessas gambiarras, e vem bem a calhar: é uma atitude que lida justamente com a verdade dos trabalhos estarem completamente interrelacionados. A greve serve para pressionar, seja o governo ou um patrão. A greve de um setor irá atrapalhar todas as relações econômicas de outros setores, que não poderão trocar o esforço do seu trabalho pelo esforço do trabalho de outras pessoas. Com a população revoltosa, não resta muita alternativa ao governo ou ao patrão em questão senão ouvir os seus funcionários.

Nesse sentido, a greve é algo intrinsecamente liberal. Ela "entende" o valor do trabalho como algo que não depende apenas do próprio esforço. E, para o liberalismo seguir suas complexas e delicadas regras, é uma obrigação que o empregado, seja do governo ou de uma empresa, possa fazer greve. Do contrário, como atingir uma justiça de salário e preço se alguém é obrigado a agüentar condições aviltantes sem poder trocar de emprego - isso para não falar de possíveis crimes cometidos pelo patronato, que podem soar apenas como "delitos" no papel (como não reajustar o salário conforme, ora, o avanço da tal inflação), mas que fazem toda a diferença na vida do trabalhador?

Mas que fique claro, a greve é justa quando os empregados já não têm mais a quem recorrer. É um ultimato, o non plus ultra, a maxima ratio da negociação trabalhista. O problema aqui é claro: todas as outras formas de negociação não levam em consideração o valor do trabalho depender não apenas daquele indivíduo, mas de todos os indivíduos. A Justiça trabalhista tem n mecanismos para coibir injustiças e abusos no trabalho, mas nenhum possui tanto poder greve_franca.jpgquanto a greve, que dispensa a burocracia, muitas vezes inócua, para lidar com uma lei que não é a da Constituição (que pode mudar com uma canetada), e sim uma inescapável lei de mercado: a greve atrapalha todo o sistema, o que gera uma pressão que nenhuma ameaça de processo pode igualar. Curiosamente, quem costuma organizar greves são os sindicalistas que mais ignoram o valor do trabalho como dinâmico e interdependente, e não individual.

A greve tem um preço, e se há um preço, alguém paga

A campanha que a Justiça do Trabalho do Mato Grosso proibiu de ser vinculada (decisão liminar, o que significa que não foi julgada e pode ser revogada numa esfera superior, ou pelo próprio juiz) apenas ensina um fato óbvio, verdadeiro e inapelável para a população: greve custa caro. E se custa, alguém vai ter de pagar. Adivinhe quem é esse alguém? Diz a Folha:

A peça de 30 segundos mostrava imagens de uma greve de motoristas e cobradores de ônibus ocorrida em maio de 2009 e afirmava que, dois meses depois, ocorreu aumento na tarifa.

Vejamos: houve uma greve de cobradores. Dois meses depois, ocorreu aumento na tarifa. Isso é uma "interpretação" ou um "fato", histórico, datado, que pode ser pesquisado nos jornais? Se ocorre uma guerra nuclear e todos morremos, os alienígenas que chegarem poderão verificar o que diz a campanha lendo os jornais que restarem e simplesmente chegarão à mesma inescapável conclusão. Mas "entidades sindicais", que tungam uma "contribuição" obrigatória (perdoe-se lá o oxímoro, é assim que eles dizem) do trabalhador, usam esse dinheiro para proibir que sejam ditos dois fatos - a greve e o aumento subseqüente da tarifa:

Em nota, o órgão disse ver na campanha "um ato antissindical e abuso de direito por parte dos anunciantes". "A campanha ataca diretamente o direito constitucional de greve assegurado aos trabalhadores brasileiros."

A ação civil pública pede também que as entidades financiadoras sejam condenadas a pagar R$ 10 milhões em danos morais coletivos.

Ora, se narrar estes fatos em uma peça de meros 30 segundos exige tal amonta por danos morais coletivos, é porque os fatos em si é que são de uma moralidade absurdamente baixa. A peça não diz isso explicitamente: apenas apresenta os fatos e a conclusão mais óbvia do planeta fica por conta do espectador. Impedir isso é censura, bem típica das "greves de estudantes" (?!) que invadem reitorias, como mostra Gazeta do Povo:

greve_reitoria_ufpr.jpg

A greve, que paralisa a produção por tempo indeterminado, poderia ser "adequada" como última força. Afinal, ela obriga toda a população a prestar atenção na injustiça (verdadeira ou suposta) que acomete aqueles trabalhadores. E, se há injustiça e a greve é a solução mais cabível, não deve haver medo de qualquer fato relativo à divulgação dos dados relativos à greve. Aliás, é o que tentam fazer todas as centrais sindicais quando voltam ao batente: estufam o peito e mostram os resultados conquistados.

Não sendo as greves no país feitas sempre por injustiças, e quase nunca como a última medida cabível (percebem sua eficiência, embora preguem teorias de trabalho desvinculado, sem nunca entender a contradição), é fácil perceber como até os próprios trabalhadores precisam ser contidos à força para continuarem na greve - daí surge a figura do pelego, o negociador, e dos fura-greves. O que resta então é coibir que a transparência das informações chegue à população. Como nossos governos oscilaram entre populistas e verdadeiras ditaduras, não é de se surpreender que tenham dado tanto poder aos sindicalistas, que movimentam as massas quase como timoreiros.

Assim, se uma greve é feita por um motivo que não era suficiente para sua realização, simplesmente se parou de produzir por determinado tempo, e se recebe por aquele tempo. É uma "falha" no valor do trabalho ligado ao trabalho de outros que alguém precisa pagar - o jeito é que todos paguem um pouco. Resultado: aumento da passagem de ônibus após uma greve de cobradores. Por que afirmar o fato é "atentar contra o direito constitucional de greve assegurado aos trabalhadores brasileiros" e faz alguém ser tungado em R$10 milhões?

Uma coisa deveria ser tão clara que não deveria ser notícia, mas juntar causa e conseqüência por essas bandas já é uma revolução: assim como a greve custa, e alguém precisa pagá-la, se alguém quer esconder uma notícia, é porque ele não quer que descubram uma verdade que essa notícia escancara.