Os conservadores e o Big Brother  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , , , , ,

Nesse fim-de-semana foi condenada à eternidade a notícia de proporções mais liliputianas da história da Humanidade desde a invenção do miojo: a transexual Ariadna, a primeira participante limada do BBB 11, está pleiteando um retorno à mansão de experimentos do Bial em uma tal "casa de vidro" num shopping do Rio. Quando Ariadna fora subtraída do elenco do BBB, em minutos foi armada uma quizilha política que pôde ser considerada um "ataque à direita": a alegação de que a barraqueira fora eliminada por ser transexual, e o povo brasileiro (que já fora "denunciado" antes disso) ser "conservador".

ariadna-1.jpgImediatamente havia pasto e circunstância para a chorumela politicamente correta de sempre, resumida no faniquito "ah, que horror, esse país não vai pra frente porque ele é conservador, eu sempre disse." O queixume foi propalado por todos, visto ser conhecido o desconhecimento da intelligentsia brasileira sobre o pensamento de um único miserozinho conservador. Assim, novamente tivemos o culpado de sempre pelos males do país, da hiperlotação carcerária ao confinamento de energúmenos numa casa com câmeras: o tal conservadorismo, da tal classe média, que, como tal, são sempre os outros.

Para nossos moralistas de plantão, a faina não foi tão excruciante: bastou ficar no sofá, assistir o Big Brother reclamando de quem assiste, ter a vidinha de classe média criticando a classe média e praticar a vigilância de sofá caçoando o movimento Cansei e o #forasarney.

Conservador: do vinagre viestes, ao vinagre voltarás

O termo conservador é o mais perigoso de todo o espectro político. Mesmo os conservadores deveriam procurar uma alternativa menos escorregadia, se querem ter algum futuro.

direita.gifAo usar uma palavra para se definir, é de bom alvitre tratar sua audiência como possível mongolóide. Mais do que isso: songa e, mesmo por isso, mal-intencionada. A humanidade é composta, em sua imensa maioria, por pessoas com pensamento de ostra, que julgam que suas idéias valem pérolas. Se muito, a "pesquisa" que fazem sobre um termo que desconhecem vai até o item 2 de um dicionário de bolso.

"Conservador" passa uma idéia de um cara velho, tentando forçar o mundo a ser como era em 1937. Para piorar, nem mesmo os gênios do esoterismo político (que nomeiam suas macumbas por ciência política) pesquisaram no Google para descobrir o nome de algum conservador, de Burke a P. J. O'Rourke, antes de criticar as idéisa do conservadorismo. Sem o salutar hábito de pesquisa, o semovente auto-pensante imediatamente tomará o significado do signo pelo próprio signo, ou pelo que ele parece significar, inventando etimologias e julgando, com isso, conhecê-lo detalhadamente, ou ao menos tudo o que é necessário saber sobre uma idéia - o que constitui, enfim, o erro mais disseminado pelas Humanidades.

Consideram que o conservador é apenas o cara tacanho. O troglodita social. O ricaço umbiguista. O tiozão que parou no tempo. Imediatamente, concluem que, se são jovens e estudam, ainda mais com professores revolucionários que acreditam que um outro mundo é possível, o conservador é apenas um burro que nunca ouviu falar em Marx - ao contrário dele próprio, que com a mensalidade bancada pelos pais reacionários, pôde ter contato com os arcanos e herméticos conhecimentos só para iniciados.

Estas crianças precisam de uma aula de História.

O conservador, assim, passa a ser identificado, sem verificação na realidade tangível, com tudo aquilo que é ruim e ultrapassado. Com a esquerda marxista, de inspiração hegeliana, era fácil confundir a História com a própria esquerda, e dizer que o capitalismo não iria agüentar, ruindo sozinho diante da revolução, o único caminho possível. Esta esparrela foi propagandeada até o último minuto: Apenas cinco anos antes da queda do Muro de Berlim, universitários saudavam o livro Ascensão e Queda das Grandes Potências, de Paul Kennedy, que "demonstrava" como os EUA ruiriam e o terceiro mundo se uniria à força que definiria os novos rumos da humanidade: a União Soviética. Não é preciso exprobar muita argumentação para mostrar como a crença vale mais do que qualquer dado sensível da realidade em nossa Universidade.

ReaganBerlinWall.jpgCom o Muro caído, a esquerda não se deu por vencida - bem pelo contrário: passou imediatamente a se identificar, misteriosamente, com os defensores do mesmo povo que arrancou o Muro a unhadas, ao invés de se reconhecer como a própria força que o mantinha confinado - como se o PT, o PSOL e Eric Hobsbawn estivessem dizendo "Tear down these wall!" antes de 89. O aparato de marketing da esquerda, sempre infinitamente mais competente do que o da direita, criou a mais perigosa terminologia para justificar seu controle social: se não era mais identificada com o motor da História (que, afinal, 2 séculos depois de Marx continua com o capitalismo alive and kicking), o esquema era se identificar com o social. Tomando um naco de cada conceito, inventaram o termo progressista.

Está lançada a sorte no jogo de cartas marcadas mais angustiante das últimas 2 décadas. Com a típica profundidade de bueiro que analisa idéias apenas pelo nome com que elas são reunidas coletivamente a posteriori, através de certo achatamento para caber direitinho em conceitos estanques (como se metade do mundo concordasse perfeitamente em discordar da outra metade), fica fácil para o pensante de prontidão identificar o progressismo com o que gerou todos os progressos do mundo, e o conservador com... bem, com tudo o que atrapalhou.

Ninguém parou para analisar que muitas idéias conservadoras não são fruto dos pequenos-burgueses que não conhecem os ideólogos do progresso. Pelo contrário: os progressistas são campeões na ignorância seletiva de tudo o que não faça parte de sua ideologia. Pior: têm verdadeiro orgulho de não conhecerem nada além do que lhes condicionaram a aceitar como verdadeiro. É como se não conhecendo as críticas feitas, estivessem mais certos - o velho comportamento de avestruz enfiando a cabeça no buraco.

Simplesmente muitas teorias, e de diversos matizes que nem sempre se coadunam lá muito pacificamente, são arroladas sob a égide do conservadorismo. Posto ainda que o conservadorismo prega o individualismo, não é graças a uma varinha mágica que as tendências dentro do seu escopo (e, alargando mais ainda, daquilo que é chamado "a direita") sejam tão díspares. É fácil ver dois conservadores discordando, simplesmente por ser fácil que uma filosofia individualista, praticada por dois indivíduos diferentes, vá resultar em pensamentos diferentes, ao invés da prática coletivista de achatar todas as arestas para fazerem todos amarem uns aos outros por decreto.

burke.jpgEntre os conservadores incluem-se diversos ex-esquerdistas (curiosamente, é semi-impossível falar de um conservador que virou a casaca para o lado esquerdo), e dentro e próximos ao seu espectro, há ateus (Ayn Rand, Eric Voegelin, Martin Heidegger, Paulo Francis, Diogo Mainardi, S. E. Cupp), muçulmanos críticos ferrenhos dos EUA (René Guénon, Hossein Nasr), gente favorável á liberação irrestrita das drogas (Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Milton Friedman), pessoas contrárias à pena de morte (de Miguel Reale a Reinaldo Azevedo), favoráveis ao aborto e ao casamento gay (basta ver todo o movimento libertário)... e também há gente que defende o oposto disso.

Mas, para ser intelectual por essas bandas, basta conhecer uns 4 ou 5 filósofos da década de 60 by Sorbonne, e definir que o que vai contra a intenção deles está errado - afinal, todos que não pensam como Sartre ou Deleuze pensam igual, e devem ser combatidos. Para compreender os dois lados de um problema, basta ficar com um lado, e definir que o outro lado é o que a esquerda não é. Se a esquerda quer um mundo melhor, a direita... bom, não quer. Se a esquerda quer que os pobres enriqueçam, a direita... não quer. Se a esquerda quer justiça e o bem de todos, a direita... não quer.

Reinventar uma etimologia para a palavra "conservador" sempre é uma bengala para considerar a própria ignorância motivo de orgulho: se a esquerda quer um futuro melhor do que o presente, a direita quer "conservar" o mundo como está. E chegar a esta platificante conclusão é o máximo a que nossa esquerdaiada é capaz de fazer com seus neurônios.

Sarah-Palin.jpgIgnora-se as conseqüências mais inescapáveis de tal bufonaria - por exemplo, um "conservador" que, por ventura, morasse na União Soviética, não iria "conservar" nada do país em que calhou de nascer (e de Ayn Rand a Vladimir Solovyov é de se presumir que alguém, numa União Soviética, não gostasse lá muito do regime). Mas a ignorância, que tão bem se coaduna com a esquerda, vem bem a calhar nesse caso também: se algo dá errado no Irã, cujos revolucionários copiam o sistema econômico soviético, é porque estes são... conservadores, já que são tradicionalistas - embora, na realidade que a esquerda ama desconhecer, sejam "tradicionalistas" de uma tradição que nunca foi comum no islamismo (nem mesmo a paranóia com as vestimentas femininas, já que no séc. XIX os sheiks eram famosos por seus haréns), sendo verdadeiros progressistas reformadores de sua sociedade.

Assim, o palco está armado, e a pompa e as circunstâncias prontas para deixar o debate político cada vez mais raso e doidivanas, quando, quanto mais se lê sobre o assunto, mais se pode se estupidificar, com autores que parecem possuir orgulho de sua imaculada virgindade no trato com seus discordantes: parece ser ainda melhor não ler aquela racinha. O "conservador" deixa de ser um intelectual que não só leu Marx e a turminha da Sorbonne de 68, como ainda os refutou: se torna apenas um mito, numa tentativa palavrosa de tentar igualá-lo ao açougueiro malufista do seu bairro.

Mas a esquerda, como sói, não está errada mesmo assim?

Ainda que tomássemos esse sentido capenga de "conservador", não haveria também belos motivos para discordar dos esquerdistas, além do motivo óbvio de serem esquerdistas?

change.jpgNão é curioso que pecham de "conservador" tudo aquilo de que desgostam, mas não se identificam e fingem não gostar dos traços afeitos à manutenção das bases tradicionais da sociedade que defendem? Que tal reclamar dos "conservadores" não quando uma transexual é limada do Big Brother (se é que o foi por ser transexual), mas quando se leva um chifre do cônjuge? Nessa hora então o problema do Brasil deixa de ser "o conservadorismo" que não aceita os novos costumes?

Por que a grita contra os conservadores vai embora assim que se é assaltado, e todos os agentes da repressão protetores do capital e da sociedade de classes estanques lhe ajudam parcimoniosamente, arriscando a vida para tal?

Onde está a chorumela esquerdista contra a classe média assim que um pobre enriquece e passa a fazer parte, economicamente, justamente desta classe? Por que o discurso vai embora na hora de ir a um cineminha de R$5,00, divertimento este burguês demais para os pobres e ralé demais para os ricos?

E que tal fazer piquetes, greves e fechar avenidas contra os "conservadores" quando se vai comprar um livro numa livraria e se percebe que Foucault, Marx e Gramsci preenchem as estantes (bem mais do que Murray Rothbard ou Ortega y Gasset, diga-se), e se pode então preencher a cabeça com idéias de todo o Ocidente, do Oriente e com as denúncias contra quem quer que seja, justamente por que o tal "conservadorismo da sociedade" o permite e nunca parece fazer proselitismo de si próprio?

ariadna02.jpgFoi o "progressismo" que nos legou esse progresso? Ou foram aquelas forças que, justamente por preferirem que todos pudessem levar uma vida confortável, mas ao preço do trabalho (no único sistema econômico da História da humanidade em que se paga pelo que se trabalhou, abolindo o trabalho escravo), não aceitam dar todo o poder nas mãos de uns poucos que tentam, por vias políticas, reinventar o homem e o comportamento que cada um deve ter? Foram os progressistas da esquerda que lutaram por democracia contra os totalitarismos do séc. XX, as maiores máquinas de matança de toda a História (ganhando em primeiro turno de todas as outras anteriores), ou foram as duas maiores forças conservadoras do século, os EUA e o Império Britânico? Não querer manipular toda a sociedade é o grande e inominável crime que os conservadores cometem?

Antes de culpar os conservadores por uma inutilidade como uma Ariadna no Big Brother, saibam que os verdadeiros conservadores conservam a TV desligada.

This entry was posted on segunda-feira, fevereiro 07, 2011 at 16:47 and is filed under , , , , , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

4 pessoas leram e discordaram

Isso aqui vai misturar uma mistura de #mimimi esquerdista com uma misstura de #mimimi big brother.

Anyway, bom texto.

Aliás, viu a Meryl Streep de Tatcher?

bj

8 de fevereiro de 2011 16:18

Flávio, achei o texto cheio de coisas excelentes, mas tem algumas pontas que, para mim, ficaram soltas. Eu ainda não sei o que você chama de conservadorismo (mas acho que você devia ser o primeiro a acatar sua sugestão e parar de chamá-lo assim), mas esse nome aparece para designar aquelas pessoas que eram contrárias às conquistas da Revolução Francesa (de ideias liberais) e queriam reestabelecer privilégios do Antigo Regime. Nesse sentido, não foi o sistema econômico capitalista e nem o conservadorismo que acabou com a instituição do trabalho escravo. O capitalismo se serviu do trabalho escravo por muito tempo, até colocar fim à escravidão como regra (porque como excessão o trabalho escravo ainda permanece). Parece que você coloca no mesmo balaio tudo que é não-comunista, como se no interior do capitalismo não tivesse existido uma disputa entre liberais e conservadores que de certo modo ainda persiste. Se vocês podem clamar por livre mercado, serem ateus e apoiarem o casamento gay e o aborto, não sei o que é que vocês conservam para se chamarem de conservadores. Só sei que nem tudo quer não é esquerda (outra palavra que não diz nada) é isso aí que você defende. Que nome a gente dá para um cara como o Getúlio Vargas? De esquerda ele certamente não era, mas acho que você não tem nenhuma simpatia por ele, ao menos em termos de política econômica.

26 de novembro de 2011 17:03

E mais uma coisa. Do jeito que você fala parece que a esquerda nunca combateu os totalitarismos do século XX. Mas quem combateu Franco na guerra civil espanhola? Foram derrotados, mas combateram. E a vitória contra os totalitarismos na Segunda Guerra não foi mérito apenas dos EUA e da Reino Unido. A participação da URSS não só aconteceu, como foi bastante importante para a vitória. À sua pergunta "foram os progressistas da esquerda que lutaram por democracia contra os totalitarismos do séc. XX [...] ou foram as duas maiores forças conservadoras do século, os EUA e o Império Britânico?" só posso responder que foi uma coalizão de ambos. Exceto, é claro, no caso dos regimes comunistas com traços totalitários, por motivos óbvios, mas isso não quer dizer que a esquerda NUNCA lutou contra NENHUM totalitarismo.

26 de novembro de 2011 17:15

Por fim, quando as pessoas dizem que "o conservadorismo" é o culpado pela eliminação da transexual, é claro que elas se referem ao conservadorismo moral, apegado às tradições e fortemente ligado a uma defesa das religiões predominantes. Se as pessoas confundem depois o conservadorismo moral com o seu conservadorismo político (que eu ainda não sei o que conserva), isso advém - como você disse - da falta do nome melhor que vocês mesmos deveriam dar para aquilo que representam. O problema é que pouca gente leva a sério aquele fato que Sócrates já conhecia muito bem: antes de falar sobre uma coisa, é preciso definir precisamente o que ela é, para que as pessoas, enganadas pelas palavras, não de desentendam apenas pelo fato de estarem falando de coisas distintas.

26 de novembro de 2011 17:34

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