#AbaixoDecreto! #ForaSarney! E viva a revolução de sofá!  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , , , , , , ,

Eu quero quebrar tudo e fazer a revolução! Mas eu o farei do meu sofá. O marechal Deodoro da Fonseca foi acordado no meio da madrugada para proclamar a República. Teve de se livrar das ceroulas do pijama, vestir a farda e ir lá, salvar a pátria. Isso foi no século XIX. Hoje, se não me falha o relógio do Windows, é século XXI. Os pauzinhos se inverteram. Eu quero fazer a revolução no meio da madrugada sem nem desembainhar a espada. Aliás, com a tecnologia wireless, quero fazer revolução sem nem me levantar da cama. Fazer meu dever cívico é obrigação; pentear o cabelo é pura frescura de séculos atrasados. Piquete is so last week. Na real, tão anos 20.

Hoje, com o Trending Topic no Twitter #AbaixoDecreto, mais uma vez rolou a grita dos verdadeiros cidadãos brasileiros: ora, deveriam fazer a revolta nas ruas. Fechar a Paulista. Fazer panelaço. Invadir a reitoria. Impedir que se ande por qualquer avenida. Levantar piquete. Pintar a cara. Batucar na frente de hospitais. Tirar as crianças da escola. Fazer como fizeram no Egito.

Esse é o jeito certo de fazer a coisa certa, não é? Trending Topic seria pra bunda-mole. E talvez seja. Mas foi para isso que inventaram a civilização: da geladeira ao revólver, todas as invenções que prosperam servem para que não só os pitboys de academia tenham algum valor de mercado e consigam roubar nosso lanche. Civilização é dar poder aos bunda-moles. Todos os homens nascem diferentes, mas Samuel Colt os tornou todos iguais.

Fazer baderna pode parecer o jeito certo, porque é o único jeito que foi conhecido de derrubar um governo, olhando para o passado. O passado não é um bom jeito de verificar o que foi certo. Na verdade, a História é a história de um bando de cretinos. Sempre que uma massa marchou para derrubar um regime, estava sendo orquestrada por uma oligarquia que queria o poder para si - e o tomou de todo, mandando a mesma massa ir pastar pouquíssimo tempo depois. O sonho de todo esquerdista, afinal, é liderar uma turba enfurecida.

sofa.jpgE por que diabos devemos ir pras ruas? Em que cargas de realidade paralela esse é um jeito melhor de se fazer política?! O sentido que se quer com isso é claro: só se é um bom cidadão, antenado e inteligente, se sua opinião precisa ser apresentada a toda a população enquanto ela vai trabalhar, estudar ou fazer alguma outra coisa daquele rol de atividades que são denominadas vida. É uma imposição da atividade política até onde ela não é mais cabível. É o sentido em fechar ruas, em gritar, em impedir a passagem de transeuntes que, afinal, têm algo mais importante do que fazer do que não fazer nada no meio da rua, mas com o objetivo de "protestar".

É legal protestar. Eu gosto de reclamar de políticos, eu quero derrubar todo mundo. Alguns, eu queria derrubar mesmo a pauladas. Mas isso eu faço na tranqüilidade da porta dos fundos do Congresso, armado de um tacape coberto de pregos. A alavanca é a maior conquista da engenharia. Um tacape é uma alavanca: sejamos progressistas com a tecnologia. Ninguém precisa fazer barricadas por isso.

mst_bradesco.jpgO pressuposto é sempre aquele de que, se um político mija fora do pinico, deve-se criar uma situação tão insustentável para a população que ela não agüente e vá arrancá-lo do seu cargo pelo pescoço. Dialética histórico-materialista. Isso funcionou com o muro de Berlim, literalmente destruído na unha. Mas é uma falta de conhecimento histórico acreditar piamente que a abertura democrática, as Diretas Já ou o Impeachment de Collor se deram pelos universitários e sindicalistas matando aula e fazendo assembléias gerais. Isso é coisa de movimentos sociais. Movimentos sociais são apenas isso, afinal: pessoas que, se não conseguem o que querem, fecham estradas e avenidas, porque são mais importantes do que transporte de alimento e ambulâncias.

Ademais, quantos escândalos rolaram no governo Lula? Houve passeata da CUT, do MST, da UNE e demais bandeirolas do PC do B impedindo acesso aos 34 hospitais da região da Avenida Paulista (8,4 mil dos 33,6 mil leitos, ou 25% dos leitos da cidade)? Em compensação, quantos "Fora FHC e o FMI!" aconteceram? Na revista Mais Valia n.º 4 há uma entrevista com duas estudantes universitárias (isso lá é coisa pra se entrevistar?!) que acharam UM A-B-S-U-R-D-O terem ido a uma manifestação e só fecharem duas faixas da Paulista. "Eles não podem aceitar isso - têm de fechar a avenida toda!" É isso que é progresso? Foi para isso que inventaram o progresso?

Os estudantes que ficaram doentes, lendo livros de filosofia política ou escrevendo de maneira mais higiênica em jornais e revistas são menos politizados do que os democratas da garganta e megafone? A Gaviões da Fiel, gritando em uníssono no metrô "Quem não for corinthiano vai pra PQP!" é a forma correta, a melhor forma de participação democrática?

forafhc.jpg A imaginação que depois formata um modelo de sociedade não acompanha o progresso científico a não ser em teocracias e totalitarismos onde o Estado impede o próprio progresso. O que essas pessoas querem é justamente querer politizar tudo, para que tudo seja questão estatal. Como se a democracia e nosso modelo de sociedade já estivesse adequado, com umas 2 ou 3 trocas de canetadas entre deputados da linha oldschool do jaguncismo na época das eleições (querendo saber quanto o Estado conseguiria controlar a internet) resolvesse todos os problemas e atualizasse nossos sistema para o século XXI, onde os eleiores não lêem mais notícias nos jornais dos candidatos, e sim os jornais dos candidatos divulgam o que seus eleitores fazem no Twitter.

Se se dizem progressistas e politizados, tratem de fazer o sistema se atualizar a ponto de uma forma populista de governo de terceiro mundo, como definir o salário mínimo por decreto presidencial, não seja mais aceita. Sobretudo, de depor contra a presidente sem precisar atrapalhar a população. Política não precisa ser assunto para quem não quer se meter com política, como Física Quântica não precisa ser assunto para quem não entende de Física, mesmo com um acelerador de partículas que pode tragar nossa galáxia num piscar de olhos.

forasarney.jpgEu quero melhorar o meu país, e por isso não vou fazer panelaço na rua. Existem coisas melhores do que um Trending Topic no Twitter? Existem, mas piquete não é uma delas. Não adianta organizarem um #forasarney no vão do MASP, e reclamarem que só foram 30 pessoas (que, misteriosamente, tinham algo para fazer, além de nada). O modelo está errado. Se a Dilma quer governar por decreto, eu quero um contra-decreto. Se na época de Collor talvez tenha sido preciso uma passeata para indicar a insatisfação popular (mesmo que fosse claro para qualquer um que tivesse uma conta poupança), hoje já não é mais. Se o governo da Dilma se desestabilizar, acho mais civilizado que notem a impossibilidade de mantê-la no cargo via Trending Topic do que fechando avenidas. Eu sou uma barricada de pijama.

Progresso é isso. Civilização é isso. Alguém imagina um dinamarquês insatisfeito com o ato de um político safado fechando avenidas por isso? Lá nem trânsito existe, que dirá alguém querendo mais trânsito pelo bem de todos.

Se só os eleitores da tag #AbaixoDecreto votassem, podem ter certeza de que o país seria melhor, sem precisar de nenhum megafone. #ForaDilma! ZZZzzzzz!

This entry was posted on sábado, fevereiro 19, 2011 at 14:20 and is filed under , , , , , , , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

6 pessoas leram e discordaram

Com todo o respeito. Discordo completamente do seu texto. Na verdade não o entendi muito bem. Você quer melhorar o Brasil como mesmo? Dormindo e fazendo tags no twitter? Eu acho que a classe média que leem Veja brigam pelas coisas erradas. Fazem barulho pelo salário minimo que não importa para elas ao inves de melhorar as condições para criações de empresas, alteração da cobrança de impostos (mais no IR e menos no consumo), aumento na arrecadação dos municipios. Estas coisas. Mas claro vocês podem continuar lendo a Veja, o blog do Reinaldo Azevedo e achando que a Dilma e o Lula são a pior coisa que existe no mundo. E continuar dormindo acordado.

20 de fevereiro de 2011 19:10

Luciano Klostermann, veja quantas referências há no meu texto a Twitter e hashtag serem coisas de bunda-mole. Pode procurar no original, não as acrescentei agora.

A minha reclamação é com quem ataca a revolução de sofá, achando que o melhor sistema é aquele em que as pessoas são obrigadas a atrapalhar as outras para conseguirem se fazerem ouvidas.

Isso é coisa pra gente que ainda não entendeu que há espaços na vida que não são políticos. Um hospital, por exemplo, como os 34 da região da Paulista (a preferida até há pouco dos baderneiros). Se quer melhorar o sistema, crie mecanismos em que a atividade política não signifique votar a cada 4 anos, e só fazer piquete (e criticar "a classe média que lê Veja e reclama de salário mínimo") nos entreatos. É essa toda a criatividade política que a intelligentsia de Humanas conseguiu ter em 2 séculos? Nenhuma reforma política que lime um candidato assim que peida pra muzenga?

Por fim, há a destilação do velho, digamos, preconceito de classe de sempre: se você discorda de mim, é porque 1) leio Veja; 2) sou de classe média; 3) repito ipse dixit tudo o que Reinaldo Azevedo diga.

Eu não vi comentário de Reinaldo sobre nenhum dos temas aqui abordados simplesmente porque há tempos não o leio (e sei que ele pouco acompanha o Twitter), como nem sempre consigo ter tempo de ler Veja (as 4 últimas que comprei desatualizaram-se antes de eu ver as frases da "Veja Essa").

Que tal não simplesmente atribuir intenções malévolas a quem vai contra o seu senso de política do séc. XIX ("as massas rejeitarão a velha oligarquia!") usando a única fonte "de direita" que vocês conhecem? Que tal, sei lá, conhecer a direita e o que ela defende (por exemplo, saber que Hayek considerou o salário mínimo "estupidez máxima") ao invés de achar que, por a esquerda ser massificada, a direita também o seria, e pensaria em bloquinho, numa linha de produção fordista-stalinista, como são os "politizados rebeldes" do lado de lá? Lembre-se que ela defende livre-mercado (o que vai contra o que o PSDB defende (e ele nada tem a ver com a direita), e também defende o individualismo...

Em 3 séculos de Revolução Francesa, ainda se julga que basta saber o que significam democracia, comunismo, capitalismo e fazer manifestação por um deles que todos os problemas do mundo estarão compreendidos e contemplados? Ainda acho melhor que me ouçam do meu sofá.

20 de fevereiro de 2011 19:39

Gostei de sua resposta, Flavio! Justamente quem quer estratificar a sociedade de forma maniqueísta e jogar um lado contra o outro no estilo Fla-Flu é quem tem preguiça de pensar e analisar os problemas. E que obviamente não quer vê-los resolvidos. Como nos tempos do Garrastazu "Ame-o ou deixe-o", os simplórios do GarrafaAzul agora repetem: "Se não aplaude, é porque é contra o Brasil (confundem, como seu guia etílico, o público com o privado, acham que o Brasil é propriedade do PT).

22 de fevereiro de 2011 08:24

A cada dia que passa acredito mais que os principais ativistas da esquerda nunca leram sequer uma página de qualquer bom autor liberal, nuca quiseram saber porque a direita se opõe ao salário mínimo nem se preocupam em pesquisar os efeitos sociais de um aumento na alíquota do IR, por exemplo...Pare até que economia não é ciência, é dogma.

24 de fevereiro de 2011 11:46

krobs, estou pra escrever um texto só sobre como discutir com um esquerdista.

Anteontem mesmo estava discutindo com um, filosofeta, disposto a mostrar que tinha idéias novas e revolucionárias para o mundo.

Disse que a direita estava "ultrapassada". Perguntei então quem ele conhecia "de direita". A resposta foi exacerbada: o PSDB (tudo bem, todo mundo está acostumado com a ignorância da esquerda que acha que o PSDB é de direita... pobrezinhos) e "outros partidos de direita", como... o PV e o PPS.

Claro, aí você, que gostaria de uma discussão universitária, precisa voltar para o berçário e explicar que existe uma teoria da direita, que tal como o comunismo marxista, nunca conseguiu ser colocada em prática. Imediatamente somos refutados com o melhor argumento possível: "Nnunca ouvi falar dessa teoria, logo, ela deve estar errada!" (claro, tudo colocado de uma maneira que não soe tão declaração de burrice).

Ou seja, ao invés de afirmarem, felizes, que devem saber algo que nós não sabemos para defender o que defendem, usam a própria ignorância como argumento, provando sem o perceber que nós, sim, sabemos algo que eles não sabem.

E aí, vamos pro embate final: alguém aí já refutou Hayek? Melhor: alguém já leu um Mises e não se tornou meio reaça depois daquilo? E olha que é óbvio que todo direitista conhece o povo de esquerda: quem aí nunca ouviu falar em Marx, Gramsci, Foucault, Deleuze, Barthes, Chomsky, Adorno? Todos já refutados. Algum deles refutou um Huizinga ou um Huerta de Soto?

E aí, sem nem precisar explicar o que a direita pensa, passamos a um corolário do acima exposto: alguém de direita já desbundou da esquerda no fim da vida, mais velho e mais estudado? E quantos de esquerda começaram a ficar mais voltados a economia de mercado e a certo tradicionalismo? Na verdade, talvez a maioria absoluta dos direitistas, não?

Como diz o Nicolás Gómez Dávila aí do lado, geralmente não se parte de um pressuposto reacionário dado de antemão: normalmente chega-se a ele.

2 de março de 2011 17:00

Tenho um professor de sociologia jurídica, um coletivista. Certo dia indaguei ele sobre as teses liberais de Mises e Hayek... Ele me solta que todos já foram refutados há muito tempo.. Daí eu perguntei se ele já lera alguma obra, qualquer obra... Adivinha a resposta.. Porra, um professor de sociologia do ensino superior! E ele ainda meio que tirou onda quando eu disse que os cursos de ciências sociais da universidade tinham orientação positivista e/ou socialista... Tive medo de perguntar quem são os "liberais" que lecionam por aqui :/

29 de março de 2011 23:10

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