A elite burguesa golpista.... de Pirituba  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , , , , , , , , ,

Um office-boy muito talentoso e trabalhador, zeloso em cumprir diversas horas extra de serviço, acaba juntando uns caraminguás na poupança e, em 10 anos, monta sua pizzaria na periferia, sonho antigo de seu pai. Com as receitas da família e o grande público consumidor que só a periferia permite, em pouco tempo esta família, de empregada, passa a empregar pessoas.

Com o aumento da freguesia e das vendas, a média de ganhos mensais desta família, no mês de agosto de 2009, aumenta de R$4.760,00 para R$4.920,00.

Neste momento, algo mágico acontece. Uma completa revolução, causada por 160 reais. A família abandona seu lado classe C e, a partir dos R$4.807,00 (quatro mil, oitocentos e sete reais), integra a classe B, segundo o IBGE. Esta família passa imediatamente a ser tucana, burguesa, elitista, conservadora e reacionária, a ler Veja e ser manipulada pela mídia golpista e pelo PIG. Sob certas interpretações, ela também se torna mais branca, e mesmo tendo seu sucesso decorrido de uma pizzaria de subúrbio, seu elitismo burguês é associado imediatamente a Higienópolis (o novo alvo preferencial da esquerda, visto ser lar do ex-presidente FHC).

Colocada de forma tão grotesca por uma diferença de 160 reais (que foi um número aleatório para completar o exemplo; poderiam ser R$10,00), esta inversão de pensamento, ideologia, modo de vida, cultura e quiçá até mesmo raça é corretamente apontada apenas como demência de quem acha que médias estatísticas são tradução ipsis litteris, sem tons de cinza, da realidade. Apenas burrice das mais risíveis, e nada mais.

Mas é com essa visão que nossos intelectuais trabalham até hoje. Não a realidade das coisas reais, mas a realidade dos números reais, como se sociólogos fossem os campeões mundiais nas Olimpíadas de Estatística.

Capitalismo.jpgPara essas pessoas, a distinção entre direita e esquerda é uma distinção entre ricos e pobres (isso não é dito por qualquer blogueiro progressista; é o mote dos maiores "intelectuais" do mundo, como Hobsbawn ou Rorty; cf. Chomsky, O clube dos ricos). Sendo assim, só é possível votar na direita sendo rico, e os pobres invariavelmente vão votar na esquerda. Abra os jornais, leia "intelectuais" de banheiro como Emir Sader ou as declarações de Chico Buarque, ou apele mesmo para a intrincada algaravia da esquerda, de Marx a Antonio Negri: em nenhum lugar há uma interpretação de estatísticas diferente dessa. todos acreditam no mito dos 160 reais expsto acima. Que dirá entre estudantes universitários de esquerda, sempre os primeiros a acreditar em qualquer patetice e vendê-la como conhecimento arcano.

Os pobres, coitados x os ricos, malévolos

Em um exemplo prático, essa interpretação, aplicada às últimas eleições presidenciais, significaria o óbvio ululante: os pobres votaram na Dilma, os ricos votaram em Serra.

Não importa quão fácil foi ver carros com adesivos pró Dilma em Higienópolis durante o pleito, nem saber os votos petistas declarados de Abílio Diniz e Lily Marinho (a viúva de Roberto Marinho, aquele da Globo, a "mídia golpista" par excellence). São apenas exceções que confirmam a regra.

Esta visão já está errada por um fator simples: fala-se de "ricos" e "pobres", que são minorias absolutas em grandes conglomerados urbanos. Para disfarçar, chamam qualquer um que não seja rico, mas também não seja rigorosamente um revolucionário socialista, de "classe média". Apenas acentua-se o erro, para provar que é um disfarce: apenas a classe média chama a classe média de classe média. Pobre chama de rico, rico chama de pobre. As definições são escorregadias. E não mostram que as ideologias se distribuem por renda.

dê a preferência.jpegO simples fato de eu dizer "classe média" já demonstra que eu faço parte da classe média. Pode-se intuir isso sem erro, como podemos intuir que um gato não voa, e que a soma dos vértices de um triângulo resultará em 180º, mesmo que não paremos para analisar se um gato voa ou não, ou para medir com transferidor os vértices de cada placa de "Dê a preferência" no trãnsito. É a famosa intuito da filosofia clássica.

Pirituba, a verdadeira elite branca

Senão, vejamos. Pela leitura de "ricos" tucanos x "pobres" petistas (mesmo que, curiosamente, nenhum petista se considere muito pobre para estar discutindo em fóruns de internet; são apenas ricos com boas intenções), o estado de São Paulo elegeu Alckmin no primeiro turno, enquanto o Nordeste não teve grandes caciques do PSDB, porque o estado de São Paulo é o mais rico da federação. Dá pra concodar até aqui? Non ducor duco.

marginal-tiete-pinheiros-sao-paulo-sp.jpgAí devemos lembrar de uma coisa. O fato do estado de SP, visto no mapa dos estados, ser considerado "rico", junto com o Sul, não significa que aqui todo mundo viva na Ilha de Caras. É só olhar pra Marginal Tietê.

Mas pior: também há pobres aqui. Os ricos continuam sendo uma minoria perseguida, e a maior cidade do hemisfério, constituída, obviamente, por 90% de periferia para uns bairros nobres que se contam nos dedos de uma mão, também votou no Serra, que seria a "direita".

O achatamento de toda uma míriade de dados em sua média, jogada para diante como "macroeconomia" (no nosso exemplo, a comparação nacional), é uma tática de engabelar os incautos, que juram estar com "dados" para defender preconceitos. Invariavelmente, quem defende esses preconceitos com bases nessa interpretação xarope das estatísticas já defendia a mesma idéia antes de conhecer os números. Apenas usa qualquer dado como desculpa - por isso, quem divulga os números os manipula dessa forma. Essa manipulação é uma das primeiras denunciadas por Thomas Sowell, em seu imprescindível Economic Facts and Fallacies.

Mas, depois de desfeito o baque do choque com a realidade mais óbvia, imediatamente obtemperar-se-á: ora, os ricos de São Paulo votaram no Serra, mas os pobres votaram na Dilma!

Não é preciso muito para compreender não a mentira, mas a vontade de se enganar - aquilo que Nietzsche chamava de Trieb zum Fehler. Serra ganhou em Cangaíba, Sapopemba, Lauzane Paulista, Tremembé, Vila Medeiros, Casa Verde, Pirituba, Cidade Ademar, Brás, Belém, Vila Prudente. De toda a zona norte, só 3 bairros tiveram maioria dilmista.

Mas sempre que um esquerdista, que julga ter dados para provar que suas idéias para manipular a sociedade estão corretas (a despeito de nunca, NUNCA poderem dar UM exemplo de país que tenha dado certo com suas birutices, e de uma pilha de 150 milhões de cadáveres), é defrontando com essas obviedades, usa o velho discurso de ricos contra pobres, como se a realidade fosse tão simples quanto uma disputa no Show da Xuxa.

capitalista.gifPor isso eles dizem que alguém pode cometer a insânia de discordar deles - ou seja, de não votar em seus candidatos. Porque, supostamente, a direita, sendo toda ela rica, está contra os pobres. Em verdade, o discurso atual é de que os ricos direitosos odeiam tanto os pobres que detestam vê-los enriquecendo, sob a égide do governo. Assim, atribuem uma perniciosa e malévola intenção oculta, aquilo que os alemães chamam de Hintergedanken, para explicar como alguém pode discordar de sua sapiência. Com a diferença, aqui, de que além de atribuir uma intenção, também atribuem dinheiro a quem não possui.

Não importa que Higienópolis tenha 54 mil habitantes, e Pirituba, que também votou em peso em Serra, tenha 163 mil. A partir do salário de R$4.807,00 o cidadão é classe B - portanto, elite dominante branca e burguesa. E sempre será "a elite de Higienópolis". Ou vocês já viram Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif, Emir Sader ou Mino Carta descendo o sarrafo na população de Pirituba?

Ainda prefiro acreditar em uma falácia mais divertida: o PSDB não investiu em educação. Isso explica a falta de conhecimento estatístico do povão, que no fim das contas, acabou votando no PT.

This entry was posted on quinta-feira, janeiro 13, 2011 at 03:58 and is filed under , , , , , , , , , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

5 pessoas leram e discordaram

Eu não sei como votaram as pessoas do meu bairro, mas tudo tem que ver com a classe social e o que os políticos e candidatos prometem para eles.
O serviço de delivery em higienopolis melhorou muito no bairro, mas não foi por nenhum politico.

8 de janeiro de 2013 14:30

E segundo a Marilena Xaxim essa família passa a ser agressiva e a tratar mal quem ela encontra na rua, na fila do banco, etc. já que agora ela é "classe média".

4 de fevereiro de 2013 08:47

Se bem que segundo a nossa Presidenta bastam uns R$ 300 e pouco pra ser "classe média", né? Eu ainda não acostumei com esse valor.

4 de fevereiro de 2013 08:50

Apesar de estarmos no ápice de uma cultura estatólatra e assistencialista e o que eu vou dizer estar se alterando um pouco por isso, o que eu vejo são os pobres tendendo para a direita e pouco se ferrando para essas ideias socialistas e os ricos à esquerda. Isto parece contradizer a teoria socialista, tanto que há aquela piada: O marxismo é que nem um alfaiate que quando a roupa não cai bem ajusta o cliente.
Pois foi o que aconteceu. Ao final da grande guerra era óbvio que os proletários estavam "desobedecendo" a teoria. Ajustar a roupa de acordo com o cliente? Não, o cliente está errado. Foi assim que surgiu o marxismo cultural, "explicando" como o proletariado está enganado e é alienado de sua "verdadeira ideologia de classe". Assim eles tentam atacar toa a sociedade por estar "alienando o verdadeiro pensamento" do proletário.

14 de abril de 2014 19:54

Muito bom, Pava. Esta metafora da alfaiate é perfeita. O que os revolucionários esquerdistas querem é mudar o ser humano para justa-lo a sua estupida revolução, mesmo que para isso seja preciso matar milhões.

20 de junho de 2014 10:10

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