A elite burguesa golpista.... de Pirituba  

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Um office-boy muito talentoso e trabalhador, zeloso em cumprir diversas horas extra de serviço, acaba juntando uns caraminguás na poupança e, em 10 anos, monta sua pizzaria na periferia, sonho antigo de seu pai. Com as receitas da família e o grande público consumidor que só a periferia permite, em pouco tempo esta família, de empregada, passa a empregar pessoas.

Com o aumento da freguesia e das vendas, a média de ganhos mensais desta família, no mês de agosto de 2009, aumenta de R$4.760,00 para R$4.920,00.

Neste momento, algo mágico acontece. Uma completa revolução, causada por 160 reais. A família abandona seu lado classe C e, a partir dos R$4.807,00 (quatro mil, oitocentos e sete reais), integra a classe B, segundo o IBGE. Esta família passa imediatamente a ser tucana, burguesa, elitista, conservadora e reacionária, a ler Veja e ser manipulada pela mídia golpista e pelo PIG. Sob certas interpretações, ela também se torna mais branca, e mesmo tendo seu sucesso decorrido de uma pizzaria de subúrbio, seu elitismo burguês é associado imediatamente a Higienópolis (o novo alvo preferencial da esquerda, visto ser lar do ex-presidente FHC).

Colocada de forma tão grotesca por uma diferença de 160 reais (que foi um número aleatório para completar o exemplo; poderiam ser R$10,00), esta inversão de pensamento, ideologia, modo de vida, cultura e quiçá até mesmo raça é corretamente apontada apenas como demência de quem acha que médias estatísticas são tradução ipsis litteris, sem tons de cinza, da realidade. Apenas burrice das mais risíveis, e nada mais.

Mas é com essa visão que nossos intelectuais trabalham até hoje. Não a realidade das coisas reais, mas a realidade dos números reais, como se sociólogos fossem os campeões mundiais nas Olimpíadas de Estatística.

Capitalismo.jpgPara essas pessoas, a distinção entre direita e esquerda é uma distinção entre ricos e pobres (isso não é dito por qualquer blogueiro progressista; é o mote dos maiores "intelectuais" do mundo, como Hobsbawn ou Rorty; cf. Chomsky, O clube dos ricos). Sendo assim, só é possível votar na direita sendo rico, e os pobres invariavelmente vão votar na esquerda. Abra os jornais, leia "intelectuais" de banheiro como Emir Sader ou as declarações de Chico Buarque, ou apele mesmo para a intrincada algaravia da esquerda, de Marx a Antonio Negri: em nenhum lugar há uma interpretação de estatísticas diferente dessa. todos acreditam no mito dos 160 reais expsto acima. Que dirá entre estudantes universitários de esquerda, sempre os primeiros a acreditar em qualquer patetice e vendê-la como conhecimento arcano.

Os pobres, coitados x os ricos, malévolos

Em um exemplo prático, essa interpretação, aplicada às últimas eleições presidenciais, significaria o óbvio ululante: os pobres votaram na Dilma, os ricos votaram em Serra.

Não importa quão fácil foi ver carros com adesivos pró Dilma em Higienópolis durante o pleito, nem saber os votos petistas declarados de Abílio Diniz e Lily Marinho (a viúva de Roberto Marinho, aquele da Globo, a "mídia golpista" par excellence). São apenas exceções que confirmam a regra.

Esta visão já está errada por um fator simples: fala-se de "ricos" e "pobres", que são minorias absolutas em grandes conglomerados urbanos. Para disfarçar, chamam qualquer um que não seja rico, mas também não seja rigorosamente um revolucionário socialista, de "classe média". Apenas acentua-se o erro, para provar que é um disfarce: apenas a classe média chama a classe média de classe média. Pobre chama de rico, rico chama de pobre. As definições são escorregadias. E não mostram que as ideologias se distribuem por renda.

dê a preferência.jpegO simples fato de eu dizer "classe média" já demonstra que eu faço parte da classe média. Pode-se intuir isso sem erro, como podemos intuir que um gato não voa, e que a soma dos vértices de um triângulo resultará em 180º, mesmo que não paremos para analisar se um gato voa ou não, ou para medir com transferidor os vértices de cada placa de "Dê a preferência" no trãnsito. É a famosa intuito da filosofia clássica.

Pirituba, a verdadeira elite branca

Senão, vejamos. Pela leitura de "ricos" tucanos x "pobres" petistas (mesmo que, curiosamente, nenhum petista se considere muito pobre para estar discutindo em fóruns de internet; são apenas ricos com boas intenções), o estado de São Paulo elegeu Alckmin no primeiro turno, enquanto o Nordeste não teve grandes caciques do PSDB, porque o estado de São Paulo é o mais rico da federação. Dá pra concodar até aqui? Non ducor duco.

marginal-tiete-pinheiros-sao-paulo-sp.jpgAí devemos lembrar de uma coisa. O fato do estado de SP, visto no mapa dos estados, ser considerado "rico", junto com o Sul, não significa que aqui todo mundo viva na Ilha de Caras. É só olhar pra Marginal Tietê.

Mas pior: também há pobres aqui. Os ricos continuam sendo uma minoria perseguida, e a maior cidade do hemisfério, constituída, obviamente, por 90% de periferia para uns bairros nobres que se contam nos dedos de uma mão, também votou no Serra, que seria a "direita".

O achatamento de toda uma míriade de dados em sua média, jogada para diante como "macroeconomia" (no nosso exemplo, a comparação nacional), é uma tática de engabelar os incautos, que juram estar com "dados" para defender preconceitos. Invariavelmente, quem defende esses preconceitos com bases nessa interpretação xarope das estatísticas já defendia a mesma idéia antes de conhecer os números. Apenas usa qualquer dado como desculpa - por isso, quem divulga os números os manipula dessa forma. Essa manipulação é uma das primeiras denunciadas por Thomas Sowell, em seu imprescindível Economic Facts and Fallacies.

Mas, depois de desfeito o baque do choque com a realidade mais óbvia, imediatamente obtemperar-se-á: ora, os ricos de São Paulo votaram no Serra, mas os pobres votaram na Dilma!

Não é preciso muito para compreender não a mentira, mas a vontade de se enganar - aquilo que Nietzsche chamava de Trieb zum Fehler. Serra ganhou em Cangaíba, Sapopemba, Lauzane Paulista, Tremembé, Vila Medeiros, Casa Verde, Pirituba, Cidade Ademar, Brás, Belém, Vila Prudente. De toda a zona norte, só 3 bairros tiveram maioria dilmista.

Mas sempre que um esquerdista, que julga ter dados para provar que suas idéias para manipular a sociedade estão corretas (a despeito de nunca, NUNCA poderem dar UM exemplo de país que tenha dado certo com suas birutices, e de uma pilha de 150 milhões de cadáveres), é defrontando com essas obviedades, usa o velho discurso de ricos contra pobres, como se a realidade fosse tão simples quanto uma disputa no Show da Xuxa.

capitalista.gifPor isso eles dizem que alguém pode cometer a insânia de discordar deles - ou seja, de não votar em seus candidatos. Porque, supostamente, a direita, sendo toda ela rica, está contra os pobres. Em verdade, o discurso atual é de que os ricos direitosos odeiam tanto os pobres que detestam vê-los enriquecendo, sob a égide do governo. Assim, atribuem uma perniciosa e malévola intenção oculta, aquilo que os alemães chamam de Hintergedanken, para explicar como alguém pode discordar de sua sapiência. Com a diferença, aqui, de que além de atribuir uma intenção, também atribuem dinheiro a quem não possui.

Não importa que Higienópolis tenha 54 mil habitantes, e Pirituba, que também votou em peso em Serra, tenha 163 mil. A partir do salário de R$4.807,00 o cidadão é classe B - portanto, elite dominante branca e burguesa. E sempre será "a elite de Higienópolis". Ou vocês já viram Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif, Emir Sader ou Mino Carta descendo o sarrafo na população de Pirituba?

Ainda prefiro acreditar em uma falácia mais divertida: o PSDB não investiu em educação. Isso explica a falta de conhecimento estatístico do povão, que no fim das contas, acabou votando no PT.

Descobri o que é "socialismo democrático"!  

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Nunca houve contradição mais estapafúrdia na esquerda brasileira do que o PSOL. Em primeiro lugar, porque seus apaniguados pronunciam seu nome como se fosse uma palavra, e não uma sigla: pê-sol é pronunciada com o mesmo p mudo de pneu. É uma dessas palavras trote de quando se aprende uma língua estrangeira, que é difícil de se pronunciar sem cuspir. Imagine-se se tentassem pronunciar por essa lógica PSDB, PTB, PPS (que iria parecer uma imitação dos tiros de armas laser de Star Wars), PSTU, PCO e PL. Só o PP se salva. Mas o pior mesmo fica pro PT: será o partido do famoso pití.


Depois, essa contradição entre palavra e signo, fonética e semãntica, é até grafada em todos os jornais que falam do partido (2): nunca se lê PSOL, só Psol. Como se fosse mesmo uma palavra. Novamente, visualizemos a democratização da norma: Psdb, Ptb, Pps, Pstu, Pco, Pl, Pp e Pt. Doeu aos olhos de alguém mais?


Mas nada é pior do que a completa desconexão entre os dois termos do partido: Partido Socialismo e Liberdade. Assim, juntos. Assim, com a conjunção aditiva e. Assim, um tapa na cara da sociedade.


A discussão entre esquerda e direita no mundo se deu, justamente, como uma discussão entre liberdade ou igualdade. O que um dirigente partidário tem na cabeça para criar um partido chamado Psol, que ainda é uma palavra com p mudo? O que, afinal, Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio, Babá et caterva têm na cabeça?!


socialism-gun-to-head.jpgVoltando a assuntos mais higiênicos, o dado mais risível do comunismo pelo mundo foi essa mania de exaltar o partido como uma espécie de lugar para onde as pessoas boas vão depois que morrem. A coisa é suspeita. Se estão querendo alargar o poder de fogo político da patuléia, sendo seus únicos reais defensores, é estranho que obtenham tão poucos votos, sobretudo das classes mais bem instruídas.


E, se esse partido quer subverter o próprio sistema em jogo, se livrando, sabe-se lá por quais métodos (ou, a bem da verdade, saiba-se bem quais são esses métodos) a oposição, então ele não é um partido. Uma parte de um todo que o abarca, e abarca outras coisas. É, simplesmente, um bando de adolescentes crescidos, barbudos e velhos que não sabem brincar.


socialism earth.jpgMas desde que a Cortina de Ferro entrou em colapso, alguns intelectuais, aquela raça que quer sempre mostrar o que é ser bonzinho para o resto dos circunstantes, resolveram, depois de uma pilha de 160 milhões de cadáveres, ver algo que justifficasse não ser comunista. Inventaram de enxergar uma tal "democracia" no Ocidente sujo, malvado, capitalista e cara de melão. A reação foi imediata: inventaram de que o socialismo estava se reinventando, e a solução serial um estrovengalho denominado socialismo democrático. É um oxíimoro tão gritante quanto o fascismo democrático, mas é a crença da esquerda nos últimos 20, 30 anos.


Mas, como o socialismo nada tem a ver com a liberdade democrática, e seus partidos sequer são mesmo partidos (o Partido Bolchevique esmigalhou até seus irmãos mais velhos mencheviques na primeira oportunidade, e eleições em Cuba ou Coréia do Norte são mais ou menos como aquelas churrascadas universitárias sem carne), como seus acólitos puderam engabelar tantos tontos por décadas a fio sem bombar no Vestibular com essa patrsnha de "socialismo democrático"?


Ora, em primeiro porque os mesmos guardiães do discernimento, aqueles que deveriam notar contradições flagrantes como essa, são os primeiros a ajoelhar no milho diante de idéias tão estapafúrdias, e defendê-las com o próprio cocoruto: os professores universitários.


Mas, forçando um pouco a amizade, podemos supor, assim, que o socialismo democrático exista. Que, através da própria democracia, todo um contingente de eleitores, de mega-especuladores a narcotraficantes, possa votar democraticamente pelo fim da democracia. Hitler, afinal, fora eleito - fraudulentamente ou não, mas até aí, fraude há em cada estado desse país.


Mas não era a isso que se referiam os "teóricos" do socialismo democrático. E foi só com um curioso acidente nesse começo de ano que descobri a arcana verdade.


Morte à burguesia!


Na segunda hora de 2011, um carro bateu na mureta do prédio de um amigo meu, estraçalhando muro, grade, pisca-pisca e derivados, deixando o carro inteiramente desmilingüido e um rombo enorme que impedia completamente alguma tentativa de segurança no prédio, com um buraco que deixava a rua a poucos metros do elevador.


Despiciendo declarar que o motorista: 1) tinha menos de 25 anos, e isso em idade física; 2) estava drogado, inobstante a falta de um bafômetro; 3) não tinha carteira de dirigista; 4) estava fugindo de outra batida; 5) destruiu carro, muro e grade, mas saiu sem nenhum arrranhão; e, last but not least, 6) era um filhinho-de-papai com o carrão do pater familias, que fez a polícia não aparecer e pagou tudo para o meninão.


Quando vejo esse tipo de delinqüente, imediatamente penso em que punição ele merece, mesmo custando uns bons tostões do meu bolso - para a segurança, aceito pagar impostos como se não houvesse amanhã. E imediatamente pensei em meus amiguinhos progressistas, de esquerda, defensores dos frascos e comprimidos: aquela galera que, sempre que a polícia prende um delinqüente, chama o Estado de "fascista".


Porém (sempre tem um porém), lembrei de cara do último fator, o número 6, antes dos outros cinco. O sujeito era um filhinho-de-papai. Não preciso sair perguntando pros autores da "blogosfera progressista", nem para os juristas do coitadismo penal abolicionista, nem para os juristas da portadecadeiosfera: alguém duvida de que algum deles não quer, até mais do que eu, uma punição exemplar, rigorosa e law & order para nosso amiguinho destroçador de muros?


Claro, se o carro não fosse do papai, mas fosse roubado; se ele fosse pobre e não tivesse como seu papai pagar o rombo (literalmente) feito; se ele estivesse com a cara mais cheia de maconha e cola do que de whisky que custa 7 vezes o meu último livro do Schopenhauer, tudo seria diferente: o delinqüente em questão se transubstanciaria por mágica em "vítima da sociedade capitalista", em um jovem que só faz porcaria fora do pinico porque não teve oportunidades, em um incapaz e inofensivo bom selvagem que seria um anjo se tivesse dinheiro.


Ora, é consabido que o socialismo tem como grande inimigo a "burguesia", mesmo aquela daqueles países sem burgos, em que as pessoas são mais ricas se passaram em um concurso público com alto michê há anos, ao invés de fazer fortunas enfrentando intempéries financeiras em feiras mercantis. Para a burguesia, dependendo do grau do socialismo, do quanto ele avançou, nem a cadeia é suficiente. Quanto mais socialista, mais paulada vão ficando as penas: de extradição e campos de concentração a morte e tortura.


socialism-rednecks.jpgMas culpar ex nihil as pessoas que ganham registradamente uma determinada faixa salarial (no jargão comuna, uma "classe social") é perigoso. Não porque alguns deles já tenha percebido que um trabalhador pode vir a ganhar o mesmo não-registradamente. Nem porque esqueceram-se dos trabalhadores free-lance, dos vendedores e demais categorias de renda variável no mês, que podem ser "burgueses" num mês e ganhar o mesmo que um mendigo no próximo. Muito menos porque tenha percebido que não há muita diferença entre quem ganha 300 tostões, ou o piso de uma "classe", e quem ganha 299, ou o "teto" de outra classe.


É simplesmente porque é difícil ganhar eleições com um discurso tão hidrófobo e assumidamente genocida. É melhor dizer que vão tolerar o direito à vida, à integridade física e outras filigranas dessa classe, mas governar de molde a tratá-la como trânsfuga inimiga até a última ponta. É preciso dar uma aparência de democracia ao jogo, certo? Os intelectuais podem não gostar.


Assim, dá-se privilégios os mais diversificados a uma "classe", ou a quem ganha de um contrato de trabalho (e ignorando-se outros recebimentos) o que está dentro de uma determinada faixa salarial, ao mesmo tempo em que se revogam direitos das outras "classes", seja dando mais direitos à primeira ou simplesmente atacando frontalmente a segunda.


Socialism-great-idea.jpgComo a Justiça só trata todos os cidadãos como iguais enquanto um advogado não vê a briga, pode-se logo concluir que um cidadão da bourgeoisie, como nosso amigo destrói-paredes, será tratado na porradaria, na law & order, na reeducação a látego. Mas, enfim, é preciso cometer um crime para finalmente conseguir colocar um burguês nas grilhetas.


E eis a mágica histórica que revolucionou a esquerda no séc. XX ao criar o socialismo democrático! Se na U.R.S.S., China, Tchecoeslováquia, Coréia do Norte, Cuba et tutti quanti podia-se abertamente deportar, matar e escravizar aqueles taxados de burgueses, o socialismo democrático segue os ritos da democracia: a classe de burocratas e sindicalistas que enxameia e aparelha o governo continua podendo tudo, até mesmo assassinato (vide os casos Celso Daniel e Cesare Battisti, com seu companheiro de PSOL Achille Lollo, e o tanto que os juristas de porta de cadeia reclamam de cada assassino e traficante "pobre" preso). Já o "burguês" será perseguido como sempre... mas esperar-se-á que cometa um crime, afinal, antes de mofar no xilindró.