Inauguração – Ou como nascer velho  

Posted by Flavio Morgenstern in , ,

Queridos amigos, estou terminando um processo de enrolação que já dura alguns meses para iniciar uma nova fase em minha atividade bloguística.

O primeiro passo foi dividir os assuntos de meu outro blog (o Caffeine Cult). Sempre havia pensado no blog como um repositário de pensamentos de quem vive em um meio de vastas leituras a cansar os olhos na madrugada. E por muito tempo até que deu certo.

O problema é que passei a escrever com certa (certa) regularidade no blog a partir desse ano - por "regularidade", aqui, entenda-se: toda vez em que podia gastar mais tempo escrevendo do que caçando trabalho. E esse ano, como o memorioso leitor haverá de lembrar, foi ano de eleições. Foi ano de tremeliques nas bases esquerdistas desse país. Foi ano de calorosos debates entre a esquerda aparelhadora, a esquerda festiva, a esquerda verde e a extrema-esquerda.

Hoje olho para o Caffeine Cult e vejo que, ao contrário de sua proposta inicial, de quando escrevia algo por lá uma vez a cada 4 meses, ele foi sendo tomado por textos eminentemente políticos. E tanto esse não era o seu foco que, após publicar um único texto envolvendo política por lá, numa época em que eu mal tinha 3 leitores pouco assíduos, eu já tratei de criar um proto-blog apenas político, que acabei abandonando - o Regulas Defaecare, cujo nome poucos tentaram traduzir do latim usando apenas o bom senso.

O problema, para mim, nunca foi escrever sobre política. Sempre que estava com um vácuo suficiente na bolsa escrotal, lá estava eu a destilar mistifórios contra a pequenez de nossos pensamentos, sobretudo de nossa intelligentzia - porque ela é que justifica a merdice que são os nossos políticos. O problema foi que não poderia mais escrever sobre outras coisas.

É difícil poder escrever sobre literatura, fazer a análise de um filme ou de uma música, como já fiz antes, quando vejo que meus 2 leitores recentes parecem conhecer o blog apenas por suas ranzinzices poliqueiras.

Eu sei como é desastroso ler blogs com temas mistos. É fácil perder leitores que gostam das minhas observações sobre filosofia política, mas não agüentam minhas piadinhas com sobejante quantidade de palavrões quando invento de falar de música. Ou mesmo que não estão interessados em minhas sólidas básicas musicais. E a recíproca é verdadeira. Nem quero imaginar o povo que sigo porque têm bons blogs sobre videogames da década de 80 falando sobre política. Ou qualquer combinação do tipo.

Preferi, assim, criar um blog de música (que essa semana estará no ar), um blog de política (este que vêem) e deixar o Caffeine com sua proposta original: comentar artigos de cultura variada, sejam os grandes clássicos do cânone ocidental, sejam séries enlatadas de TV americana; sejam críticas filosóficas á patuléia ignara, sejam videogames cheios de sangue violência para a nossa juventude.

Disclaimer

Ter um blog de política, porém, exige uma explicação extra. Tenho agora minha coluna semanal no Instituto Millenium, onde ainda posso destilar um pouco de minha bile de maneira acadêmica, burilada e atento às vicissitudes do momento. É um espaço que me foi gentilmente cedido e, por um respeito imenso por ter meu nome em companhia de Demérito Magnoli, Reinaldo Azevedo, Maílson Nobrega, Gaudêncio Torquato, Roberto Civita, Sandro Vaia, Nelson Motta, Gustavo Ioschpe, Ricardo Amorim, Yoani Sánchez, Alexandre Schwartsman, Roberto DaMata, Ives Gandra Martins, Alexandre Barros, Guilherme Fiúza, Moacyr Góes e Roberto Romano, procuro deixar para o Instituto apenas o melhor de mim.

(foi assim, aliás, que, orgulhosamente, tornei-me o autor mais lido do Instituto por mais de dois meses quando dos artigos A farsa da quitação da dívida externa e Regina Duarte estava certa, me deixando em primeiro e em segundo lugar.)

Porém, nem sempre posso escrever qualquer coisa para o Instituto. Às vezes é bom ter um lugar para discutir assuntos menores, que se dissolvem com mais rapidez nas águas do momento. E ter um espaço para comentar assuntos no calor da ação, já que qualquer espera pode destruir a intensidade do que se escreve. E, afinal, poder falar de política suja com boca suja, vez por outra.

Transportei para cá os textos sobre política do Caffeine e do Regulas. Estes últimos são antigos, mas possuem coisas boas, que não se perderam com o passar dos anos. Quem estiver a fim de escarafunchar, escarafunche. Tem boas coisas por aí, que logo vou ressuscitar.

Não terminei de editar tudo o que preciso. Há muitas coisas no layout que ainda não consegui editar, e preciso cuidar da edição de algumas coisas nos posts antigos quase um a um. Mas o resto vocês já conhecem: é meu velho conteúdo político tentando ir além dos fatos sem as soluções fáceis e clichê da autocomiseração pedinte, do outroladismo partidário, do coitadismo facínora, do vezo comezinho de culpar o sistema e outros inimigos prontos, fáceis, abstratos e genéricos que insofismavelmente ocultam os verdadeiros problemas, geralmente a poucos milímetros do nariz de formadores de opinião e seus cupinchas.

Assim, esse blog nasce, mas já nasce velho. É um bom subterfúgio para sua ranzinzice. E um bom motivo para que os textos que tenho enrolado para publicar possam vir à luz sabendo que estão em um espaço não invadido, feito para eles e sem ter de ombrear espaço com o que realmente interessa ao mundo: as grandes obras que independem de partido.

F. M.

This entry was posted on terça-feira, dezembro 14, 2010 at 11:21 and is filed under , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

0 pessoas leram e discordaram

Postar um comentário