Caros congressistas (com o perdão do trocadilho)  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , , , , , , , ,

"Nossos corruptos são tão incompetentes que só conseguem roubar do governo. Se fossem ladrões na iniciativa privada morreriam de fome." - Millôr Fernandes


Carta aberta aos diversos congressistas que votaram por um aumento próprio de salário de 61,8%, pois estavam em vias de extinção pela fome:


Caros congressistas (com o perdão do trocadilho)


A população brasileira e mesmo os poucos gatos pingados do resto do mundo que ainda se lembram da existência desse país, quiçá alumiados por Sylvester Stallone e Robin Williams, andam aos frangalhos após a notícia do aumento dos Vossos honorários. Não venho por meio dessa ser mais um numa míriade de histéricos brasileiros que se indignam com qualquer filigrana menor, como um impacto de R$ 1,8 bilhão no orçamento das cidades, pois sei de quão ilibadas são Vossas reputações, e de quão cansativo é Vosso labutar anual - são mesmo poucos os brasileiros que suportariam tão avultoso montante de horas trabalhadas por solstício, sobretudo tendo de agüentar os insuportáveis e sempiternos discursos de Eduardo Suplicy, que fazem qualquer minuto ter o peso de uma eviternidade.


Venho portanto cumprir minha cidadania (talvez por nunca ter ganho uma medalha de escoteiro) e dar dicas de como Vossas Excelências podem economizar essa dinherama mingüada, pois tudo nesse país vai pro ralo dos impostos pagando a máquina burocrática, inclusive Vossos próprios salários, o que faz com que paradoxalmente paguem para receberem. Algumas laboriosas dicas econômicas que podem ser úteis para que não precisem de um novo aumento, digamos, de 150% nos próximos 3 meses.


Primus, é consabido que boa parte dos gastos de um parlamentar é escoado nas escarificantes mensalidades das escolas dos filhos, pois nenhum dos senhores, de inquestionável inteligência, é idiota a ponto de colocar o filho numa escola pública, não obstante o tanto que arrogam terem feito pela Educação nesse país. Dessarte, uma boa medida seria criar batalhões entre os próprios parlamentares para, nas raríssimas horas vagas do Congresso, darem aulas para seus filhos ali mesmo - aliás, as cadeiras são mais confortáveis até que as do Rio Branco. Quem não gostaria de ter seu filho tendo aulas com os próprios governantes, os entes mais preparados para tal fardo?


Poder-se-ia, inclusive, criar um programa de educação à distância patrocinado com o pré-sal para, numa cajadada única, também elevar os níveis de educação do país, além de preparar nossos jovens para a profissão mais rentável e democrática abarcada pela Constituição: a política, que diminui a desigualdade social entre latifundiários e sindicalistas, doutores e analfabetos.


pizza.jpgQuem não gostaria de ver seu filho tendo aulas de inglês com Aldo Rebelo, de economia com Delfim Neto, talvez de Administração de lojas de R$1,99 com a própria presidenta (sic) da República? Há espaço para cursos livres de tecnologia da Informação com Azeredo, composição musical com Tiririca ou até artes performáticas com a ex-deputada Ângela Guadagni. Poderíamos até mesmo reestabelecer o Trivium da educação medieval que deu origem às Universidades. Que tal algumas aulas de gramática com Tiririca, oratória com Eduardo Suplicy, com o bônus de aulas de sexologia com sua (dele) ex-mulher? Quem sabe um tanto de dialética com a bancada do PSOL unida à ala trotskysta do PT, ou, quiçá, de ética com Paulo Maluf, Roberto Jefferson, José Sarney e Renan Calheiros?


Secundus, é um direito notório, outorgado pela Constituição, que um parlamentar deve ganhar o suficiente para viver a vida apenas legislando, sem preocupações extra-curriculares - além de não tem nenhum dever de legislar. Possuindo tal democrático direito conquistado a duras lutas, manobras políticas, transmutação elitoreira e demais tramóias perfeitamente legais, por que não confraternizar os minguantes momentos em que os ocupadíssimos congressistas estão de férias entre um projeto de lei e outro e churrasqueiro.jpgorganizar grandes festins? É de se duvidar que nenhum dentre vós sabe cozinhar - e preparar um suculento leitão à pururuca para ser vendido em feiras livres por Brasília a preços populares pode acabar com a fome de boa parte do Sobradinho e da Ceilândia. De toda forma, isto poderia manter Jorge Lorenzetti ocupado o suficiente para não se envolver novamente com dossiês - e boatos dão conta de que seus churrascos são palacianos.


Isso também pode ser aproveitado para o lazer, why not?, sendo que todos sabemos o quanto um estressado legislador deve esfriar sua mente após tanta labuta. Que tal colocar uma rede no meio da mesa do presidente de ambas as casas para animadas partidas de pingue-pongue, e evitar exorbitantes preços de partidas de tênis, golfe e turfe? Isso também poderia ajudar a fazer entender o governo e a oposição, organizados em duplas PSOL e PFL contra PSDB e PT, quem diria?


Tertius, os parlamentares em questão também têm direito aos bons gozos que a vida proporciona, é claro. É o único prazer que tanto os filhos do Bradesco quanto os flagelados da seca têm em igual proporção, expalocci.jpgcetuando-se o fator estético, o espelho de teto e os vibradores tailandeses de 3 velocidades. Como dizia Diógenes, um prostíbulo mostra que entre diversão barata e cara não há lá muita diferença. E é notório e bem conhecido de todos que o Congresso Brasileiro não possui, digamos, um salão oval. E não é preciso se preocupar com a repercussão pública desta zona de tolerância: desde um famoso caso envolvendo um futuro ministro da Casa Civil que não citarei o nome, é de praça pública que uma simples quebra de sigilo pode devolver à vida pública à qualquer homem público - e será mais fácil ainda com qualquer mulher pública, como atestado por qualquer dicionário.


Assim, sugiro que o erário transmutado em comissão parlamentar que está sendo, digamos, investido nas profissionais que cuidam dos bons tratos de nossos caros congressistas seja melhor aplicado (!) num michê fixo, mensal, pago a concursadas para executar essas funções. Não são poucos os casos de machos que pararam de freqüentar as putas por calcularem ser mais econômico pagar tributos tabelados à estagiárias de Direito e Comunicação.


Já aqueles cujos perus estão em desuso há alguns bons equinócios, tratei de pesquisar o preço do Viagra e notei como ele deve ser mesmo uma notória preocupação no bolso (sem trocadilho) dos congressistas. Ainda não encontrei uma solução viável para tal delicado impasse, mas se o Bill Gates doou Viagra para a África - bela ação, apesar de atrapalhar o urgente controle populacional - creio que um pedido para a Microsoft, talvez com renúncia fiscal abonada, venha bem a calhar, pois é um gasto que influi diretamente no peso dos impostos da máquina do Estado, d'accord?


Enfim, parafraseando Churchill, O que eu espero, cavalheiros, é que depois de um razoável período de discussão, todos concordem comigo.


Com meus sinceros sentimentos (por obséquio não perguntar quais),


Flavio Morgenstern.

This entry was posted on quinta-feira, dezembro 16, 2010 at 11:54 and is filed under , , , , , , , , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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