Manifesto públicogratuitoedequalidade  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , , , , ,

Há um manifesto circulando na internet há alguns de alguns professores universitários públicosgratuitosedequalidade fazendo o que mais fazem: falar mal do PSDB, sempre associado à “direita”. Segue abaixo, volto depois:

Manifesto em Defesa da Educação Pública

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.

Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política de sucateamento da Rede Pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da Rede Pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores qualificados e a desestimular quem decide se manter na Rede Pública. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.

No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.


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Eu concordo plenamente que a pior coisa que a gestão do PSDB fez foi em relação à educação. Passar aluno direto, cortar investimento, investir rios de dinheiro em universidades privadas... não dá pra contar um único acerto dessa tucanalha. Mas aí entra o PT, e em 8 anos... cria o Prouni. Que fez essa mesma esquerda "mobilizada" fazer greve, piquete, invadir reitoria etc etc em 2008. O modelo USP de invasão de reitoria é exportado para outras universidades Brasil afora. E eu penso: é um bom motivo pra se largar as (poucas) coisas boas que os tucanos fizeram em outras áreas só por um Prouni? E as verbas e cotas em universidades privadas não continuaram nos últimos oito anos, afinal? Aliás, não aumentaram?

Aí, quando vejo um texto desses (primeiras assinaturas: Fábio Konder, Coutinho e Marilena Chaui... cruzes!!), começo a notar algumas maluquices perdidas no meio de críticas que poderiam se manter sérias. Esses tais "decretos", por exemplo, não revogam autonomia nenhuma. Não vi nenhum invasor pesquisar o assunto, mas estavam lá, jogando futebol na reitoria. Acreditar em panfleto do PCO pra formar opinião acaba gerando esse tipo de encrenca. Vou manter as críticas sérias e só marcar cada ponto "esquisito":

Falam em "contratos precários e às condições aviltantes de trabalho". Ok, sei o que é ser professor de periferia. Mas também não é uma mina de carvão. Recurso retórico que passa despercebido como exagero in extremis.

Depois, fala-se que (Serra/PSDB) "desqualifica movimentos organizados da sociedade civil". Ora, já escrevi que "sociedade civil" não existe. O que existe são apenas pessoas não filiadas a um partido. E que raios de "movimentos organizados" são esses? O Sintusp? A UNE? A Apeoesp, prometendo acabar com o governo de Serra nem que seja na porrada, e fazendo propaganda ilegal pra Dilma? Descendo mais a minudências, logo logo só sobra o MST e a CUT. Tutti buona genti, ma tutti ladri et forbi.

Não se construiu nenhuma escola técnica federal nos anos FHC mesmo, mas é um bom jeito de não falar das estaduais – onde eu estudei, por exemplo. Aliás, será que haveria tantos cursos de processamento de dados se dependêssemos da antiga reserva de mercado dessa galera? E que tal de telecomunicações, que explodiram logo depois das privatizações? Acho que hoje teríamos internet a 52 kbps, ainda. E declarada no IR.

Eu não sei o que significa o verbo "sucatear". Se você pedir pra esse povo explicar bonitinho o que é, vai descobrir que nem quem escreveu esse texto sabe. É uma palavra genérica, que significa qualquer coisa de que o sindicato não gostou.

Concluem causando medo, terror e pânico sobre uma empresa privada distribuir material. Oh, meu deus, o neoliberalismo! O imperialismo yankee! Devemos proteger nossa educação do risco de um "sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados"! A propósito, um sindicato vermelho de cabo a rabo não funciona, in praxis, como uma entidade privada, afinal?

Mas a conclusão é mesmo assustadora: "A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor." WHAT?! Serra sequer presidente já foi, e quem é que, nesse país, pode falar e fazer qualquer coisa, que não só se escorará em sua popularidade para o caso das urnas, como terá a certeza de impunidade até pro STF?!

Isso tudo, é claro, misturando alhos com bugalhos, fazendo comparações que nem multiplicadas por mil são cabíveis (o PSDB, esse partido incompetente e com medo de falar em público, age como a extrema-direita americana religiosa?!), falam de CPI e corrupção para defender um partido de mensaleiros e corruptos no alto Executivo, e que tem (veja que bizarro!), e secretário de educação de São Paulo (!!!) como chefe de campanha....

Enfim, são coisas que, jogadas num texto, até confundem, convencem quem foi pego desprevinido. Mas quando analisadas as filigranas, percebe-se que tentam justificar o ruim não com o mal lavado, mas com o próprio lodo. E visto bem, é possível ter argumento melhor pra não levar esses "movimentos sociais oprimidos da sociedade civil" em consideração do que ler o que eles mesmos escrevem?