O feminazismo de rebanho  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , ,

E dever de todo puto egresso do avant-gard das perobagens fascistóides que se convencionou chamar por ciências humanas neste país esclarecer a este escriba quando foi proibido ser um único ser humano pensante em terras nacionais, possuindo um porta-bagos próprio com sua dupla carga e também um único cérebro que prescinda de outorgações e proibições vindo de seus cupinchas superiores.

O busílis em voga é o crime cometido pelo goleiro Bruno, do Flamengo, que etc, etc. O acordo tácito na intelligentsia blogueira é o de que você deve comentar toda e qualquer questão que vire notícia e tema de conversação por mais do que o tempo de uma aliviada na diarréia. Alguns, por fazerem disso a sua paga para o leite das crianças e a pornografia russa por assinatura; outros, porque blog é de graça e é preciso alardear aos quatro cantos da chatura terrestre a sua capacidade de produzir conteúdo – o que traz de volta o tema da disenteria.

A blogosfera torna-se, assim um loop infinito de logorréias sobre os mesmos temas, tratados pelos mesmos pontos-de-vista, repetindo os mesmos chiliques de efeito, com a mesma indiganação extravasada pelos mesmos chistes de sempre. Um mise en abyme cuja única saída é o botão Power. Quererá o leitor saber a opinião de Sílvia Abranches sobre a escalação de Dunga? Ou as justificativas de Amanda Figueira para aprovação da lei do divórcio? E saber das considerações de Eduardo Crespaldo a respeito do uso da burca na França? Eu também não.

Mas a regra é clara: tendo um blog, é sua obrigação postar, mesmo que seja a reprise em câmera lenta da regurgitação do mais do mesmo do que já foi repetido. A corja resvala tão previsivelmente neste regressus ad infinitum que, apesar de blogueiros de estirpes tão diversas umas das outras escreverem todo santo dia sobre o assunto do santo dia, quando ocorre um choque indireto, um verdadeiro conflito de idéias, a azáfama pega a todos de calças curtas, como se tivessem acabado de descobrir vida inteligente na Rede TV.

Porém, como o caso em questão não permite muita polêmica, o comportamento blogosférico foi um tanto quanto melindroso. Basicamente, há ensejo para a indignação – only this, and nothing more. Mas as complexas relações ocultas de poder não escapam ao exame revolucionário dos pensadores brasileiros, que imediatamente tratam de blogar indignando-se da indignação do próximo. Pratico aqui meu dever de cidadão consciente rematando mais um elo nessa corrente de indignação indignada.

Dois textos servem de exemplo do pensamento coletivo e repetitivo que busca causar "reflexão" através de uma vitamina de óbvio ululante: O caso Eliza e a violência de uma sociedade patriarcal, de Mayara Melo, e Eliza Samudio sou eu; Eliza Samudio somos nós, queiramos ou não, de Bruna Scarpioni. O leitor pode se sentir convidado a se embarafustar mais a fundo nos arrazoados apresentados, embora seus títulos já demonstrem serem não criações individuais, e sim alfarrários pré-programados que visam a ideologização mais rasteira sobre o caso do goleiro retalhador. Estas obras não são esforço individual: são sintomas coletivos.

A verborragia é a mesma litania ruminada desde Cabral: não houve um crime realizado por indivíduos com excremento no lugar do cérebro, o que há é uma sociedade pecaminosa, machista, capitalista, neoliberal, conservadora e (há quanto tempo não ouvia tal vocábulo...) patriarcal que gera esses delitos. A síntese do "pensamento" é: a sociedade prepara o crime, o indivíduo apenas estupra, seqüestra, tortura, mata, esquarteja, desossa e dá para o cachorro comer. A patriarcalíssima Igreja Católica deve ter adorado.

O pensamento coletivista só é capaz de agir em rebanho. Agora uma parte do gado quer jogar a culpa do crime em toda a outra parte. Não é permitido ter um único cérebro e uma única bolsa escrotal para pensar "a sociedade". Ainda temos nossos iPod, mas chegamos ao estágio final do comunismo no que se refere ao pensamento: a estatização de colhões.

A grita de nossas amiguinhas é pela forma como trataram a cidadã Eliza Samudio em comentários esparsos internet afora. Foi caso para "tremer de indignação" (peço ao caro leitor desconsiderar objetos que causem tremores em feministas). O que é uma prova, afinal, de que todos nós (refiro-me apenas aos homens, e quanto mais brancos, burgueses e menos estatizantes, maior a culpa) temos nossa responsabilidade no assassinato da ex-atriz pornô.

Ora, segundo as analistas de ética em mídias sociais, é uma atitude chauvinista atentar para a putaria praticada pela Eliza: isso indica que somos homens que "usam", "submetem" e "se aproveitam" do corpo das mulheres (não, ainda não se falou em objetificação). Afinal, essa é a mesma ideologia de uma sociedade que abusa do corpo de uma mulher, a ponto de dar os pedacinhos pra cachorrada.

Seria curioso pensar em um nível um pouco mais profundo do que um pires se é esta a questão nevrálgica em foco. São machos que abusam (?) do corpo da mulher ao praticarem tentativas propositalmente mal-sucedidas de perpetuação da espécie, e filmarem o processo sob títulos como "Até que enfim anal" ou "Violação anal 4". Portanto, uma pessoa (!) politicamente correta deve se indignar deste ato – ou, melhor dizendo, da sociedade que abarca este ato, pois ao reclamar do ato, sem culpar toda a tal sociedade na mesma carrada, incorre-se nas demonstrações de machismo, preconceito e intolerância que indignaram à tremedeira nossas patrulhadoras.

Mas ao dizer: "Putaquemepariu, será que não dava pra essa dona aí se envolver com um macho ocidental e troglodita menos pior?!", já que não tomamos o vitimismo barato que culpa a sociedade produtora de facas, e sim quem pegou na faca pra matar, somos também os próprios culpados pela morte de Eliza. É um caso estranho de culpa (ou seria dolo?), em que temos culpa justamente por culparmos o criminoso.

Pois eu nunca vi sociedade mais respeitosa quanto às mulheres como a nossa. Uma sociedade em que elas podem ganhar para fazer um filme pornô não é machista, é libertadora – nossas feminazis queriam mais o quê? Obrigar essas fêmeas a servir o Exército?

Esta sociedade patriarcal e culpada é a sociedade em que podemos ver casaizinhos indo ver um filme extremamente misógino como O Anticristo, de Lars von Trier, e na saída o elemento macho reclamar da chatice da película, preferindo ver Dragão Branco, ao que é obtemperado pelo elemento fêmea: "Mas o cinema europeu é rico em sensibilidade!"

É a sociedade patriarcal em que Houellebecq pode lançar piadas como "Qual o nome da camada de gordura ao redor da vagina? Resposta: Mulher", sem que consigamos conceber que este indivíduo vá mesmo tratar uma mulher como uma camada de gordura – mas, afinal, exigir que "classes sociais" universitárias possam compreender uma ironia antes de arrotar Foucaults e Bordieus com esgares gazeteados de pseudo-refinamento e compreensão é exigir um elevado grau de força individual em um embrutecido rebanho que se leva mais a sério do que o faria o Canal Rural.

O que o tal patriarcado (incluindo sua parcela feminil) que indignou nossas amigas ao tremelique está fazendo não é senão tratar bem as mulheres que merecem este tratamento, distinguindo-as de marias-chuteiras que, só por serem mulheres, não merecem ser santificadas. É diferenciar uma mulher que vive em função da carteira alheia de Elizabeth I, Vitória, Hatshepsut, Thatcher, Cosima Wagner, Ayn Rand, Hannah Arendt e outras tantas que põem no bolso os homens que as idolatram. É proteger as mulheres que respeitam da influência de indivíduos psicóticos que as vêem como presas em potencial, prontos para tratá-las como um cavalo assim que possam colocar suas (deles) patinhas em seus (delas) corpos.

É, justamente, exigir moral de um ser humano – mas para nosso gado universitário, possuir uma moral é ser moralista, e ser moralista é ser patriarcal e machista, invariavelmente – tendo em mira que ao aquilatar o valor de uma vida pela sua moral acabaremos por tratar com encômios pessoas esforçadas como as acima citadas e tratar com um soslaio de reprovação as outras que buscam uma vida fácil de ascensão por fama, poder e grana – e esta desigualdade de tratamento é considerada preconceito machista, retrógrado, intolerante e autoritário por nossa manada ruminante.

Um assassinato brutal como este está longe de merecer a carga moralizante que o vocábulo "feminicídio" acarreta. Não foi um crime contra uma mulher por ser uma mulher, e sim um aproveitamento de poder e força física de um assassino contra uma presa que viveu de maneira que facilitou sua injustíssima morte. Mas agora até crimes fazem parte de "classes sociais" em luta violenta constante...

Visa-se, justamente, evitar que este tipo de crime absurdo se repita – por isso prefere-se honrar os esforços de uma mulher que está mais preocupada em visitar uma biblioteca a uma que usa o corpo para ascender socialmente – e estas loas implicam, justamente, não ter o mesmo nível de respeito pelas marias-chuteiras. Ninguém tirou a culpa de Bruno, ninguém culpou a vítima (!): quer-se, justamente, destruir as circunstâncias que permitam que este tipo de carnificina ocorra.

Para inverter o sinal e culpar os próprios defensores de uma vida livre de sevícias e violentas sanguinolentas, nossas amigas só podem mesmo é inventar fatos de estro próprio (como aduzir que Bruno obrigou Eliza a transar sem camisinha e tenha exigido um aborto, quando foi até mesmo seqüestrada para abortar contra a vontade), mas elas também têm uma lição de moral a passar adiante. Conclui Mayara:

"Por isso, ao invés de assistirmos passivamente a essa trágica história, devemos pensar sobre a nossa parcela de responsabilidade na violência contra as mulheres. Ela é fruto de uma sociedade patriarcal que naturaliza a submissão do corpo feminino e que reproduz cotidianamente discursos e práticas machistas que perpetuam essa situação. Assim, foram violentos os assassinos de Eliza, mas também foi violento o Estado que lhe negou proteção, a mídia que transformou sua morte em espetáculo e todos e todas que passivamente assistem ao desenrolar da história se achando no direito de condená-la por ser mulher."


Naturalmente, o esquartejamento só pode ter sido fruto de nossa sociedade tão misógina, que não permite que uma fêmea tenha os mesmos direitos civis de um macho. É tudo derivado de nossas práticas machistas, como diferenciar nossas professoras de prostitutas. E a violência vem do Estado lhe negando proteção (o mesmíssimo rebatido argumento de Túlio Vianna, outro feminazista, em texto de 2003, ao defender que o estuprador e também esquartejador Champinha não cometeu crime algum, pois a violência veio do "Estado que lhe negou uma infância minimamente digna") e da mídia, que ficou chocada – ou, exatamente por isso, teria feito um "espetáculo" (Túlio, de novo, continuando a frase: "e a mídia que só enxerga as crianças e adolescentes miseráveis para mostrar a seus consumidores o quanto eles são "perigosos" e com que frieza eliminam uma vida").

Como se vê, nem a ordem do discurso é capaz de sofrer alteração. Não só indivíduos singulares foram proibidos de existir, após a "dissolução do sujeito" de Foucault: é impossível, agora, analisar qualquer aspecto da realidade como um fato novo. É proibido pensar: tudo já está definido numa retórica pré-determinada, feita numa linha de montagem de algum gulag soviético, e só se pode é esmagar a realidade para que ela caiba em seu formato, torturar os números até que eles confessem. Basta ter um discursinho semi-pronto, e condenar a sociedade para acusar um goleiro retalhador rico, ou condenar a sociedade para defender um vagabundo retalhador pobre. Decreta-se o fim da primazia da realidade sobre o preconceito, e volta-se ao bobo argumento da autoridade em nome do progresso.

Mas se é isso que nossas amigas chamam de "reflexão" e é isso que querem, eu reflito: visto que encorajo mulheres a não serem marias-chuteiras e as trato com todo o amor e carinho quando elas se esforçam por uma vida diferente, qual é a minha parcela de culpa neste assassinato?

Nenhuma. Próximo.

This entry was posted on quarta-feira, julho 14, 2010 at 18:09 and is filed under , , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

2 pessoas leram e discordaram

Flávio

Eu não tenho costume de culpar a sociedade ou a cultura ou qualquer outro ente relativamente abstrato por atos de indivíduos malucos que evidentemente sabem que sairão impunes (ou terão penas pequenas).

Mas nesse caso, devo discordar de você. Existe sim certa aceitação (não digo que geral, mas existe) de que violência contra mulheres é uma coisa normal. E existe também uma tendência de sempre se culpar a mulher em casos nos quais essa violência ocorre. Até não muito tempo atrás, todas as crianças tinham que ir à Igreja escutar que uma mulher acabou com o paraíso porque resolveu de divertir um pouco. Ela seduziu. Ela se aproveitou. O homem, na fábula, é um coitadinho, vítima do seu maquiavelismo.
Aí meus pais, nossos avós, crescem escutando isso. E quando vêem que uma prostituta foi estuprada dizem “quem mandou ser prostituta?” E é mais ou menos esse raciocínio que leva um policial a não levar muito a sério o pedido de uma atriz pornô contra um jogador de futebol. É uma coisa “ah, é biscate mesmo, tá querendo o que?”

Isso acontece e não precisa nem de um tratado sociológico com pesquisa do tipo grounded theory para ver. E por mais que não tenha sido o policial ou o burocrata que negou o pedido da Eliza por proteção que tenham cometido o crime, eles não cumpriram o seu papel: proteger a inviolabilidade do corpo de uma pessoa que paga impostos, independentemente de quem ela é.

Quando você fala “vamos evitar”, eu, pessoalmente, utilizo essa postura. Mas se a gente sair do real (mundo cão, cada um por si) e for pensar em princípios, qualquer mulher deveria poder sair de micro saia ou ser atriz pornô ou o que ela quisesse sem ter medo de ser violada. Da mesma forma que, em princípio, qualquer pessoa deveria poder sair com um Ipad no metrô de São Paulo sem ser roubado e tomar umas porradas porque tem um objeto que todo mundo acha lindo.

Bjs!

18 de julho de 2010 19:28
Anonymous  

Mas eu concordo, há que diferenciar as prostitutas das professoras.
Chesterton

19 de julho de 2010 10:37

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