Liberalismo estóico 2.0  

Posted by Flavio Morgenstern in , , , , ,

O período helênico foi fértil para o nascimento de diversas escolas divergentes sobre o pensamento da Academia platônica e dos filósofos e pensadores menores que a antecederam. Três escolas se destacaram com magnitude: o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo. A despeito do ceticismo ter ressurgido com força após os desenlances do positivismo recente, as outras escolas parecem mortas e esquecidas.

Contudo, sem nome declarado e sem se reunir em torno de um ideal comum, estas escolas mantêm-se vivas na construção de outras ideologias. O grande debate político hodierno e os fatores que determinam os caminhos tomados pela esquerda e pela direita ainda seguem alguns preceitos definidos pela primeira vez por estas escolas.

O objetivo da esquerda, em linhas gerais, pode ser resumido como uma atitude autárquica e gnóstica – isto é, capaz de, por esforço próprio, ter a total compreensão da realidade humana – que, com graus variados de concentração do poder nas mãos do Estado, é capaz assim de prover os bens necessários para a felicidade dos indivíduos sob aquela jurisdição. Os homens são forçados à igualdade, e sua função é trabalhar, de alguma forma, para a máquina estatal.

O epicurismo, em comparação, é uma visão do homem não dependente de construções sinergéticas para atingir seus fins. O mundo é passível de compreensão pelo homem, e este pode atingir a felicidade, que é a ausência de dor. Para tal, o homem só precisa de si mesmo, sem se valer de instituições, dinheiro ou dos deuses. Todos os homens são iguais, já que essa felicidade sem instituições vale para todos.

Embora pareça haver poucos pontos em comum, a escola epicurista, sem que a maioria dos historiadores atinasse, sobreviveu nos entremeios da filosofia, voltando com força nas mãos de Marx. Para tal, o discípulo de Hegel confiou no mestre, que aplicou as regras da dialética como o funcionamento do próprio mundo – e se a História segue uma linha dialética, ela está sempre se “corrigindo”, sempre progredindo – e sua “conclusão” inevitável coincide com o surgimento do Estado moderno.

Nesse Estado é que Marx aposta todas as suas fichas, ou mais exatamente em sua inevitável derrocada, que progrediria para o Estado socialista. Aqui, talvez sem ser percebido, o epicurismo dita regras, tomando a própria dialética que moveu o interesse no Homem para a definição maior do Estado: o estado independe de instituições externas; tudo é possível de ser entendido pelo homem, através do motor da luta de classes; o homem pode atingir a felicidade, que significa a ausência de dor – ou dessa luta injusta, que terminará quando for implantada a ditadura do proletariado; assim, viverá livre de instituições, dinheiro ou deuses. Todos os homens serão iguais, ou ao menos o Estado assim “garantirá”.

O que concernia ao homem, no epicurismo (embora “homem” ainda não possa ser considerado o indivíduo, a única fronteira sagrada de que nos fala Ayn Rand), passa a ser apanágio do Estado. É onde nasce nossa cosmovisão estatizante, que, sem nenhuma razão, se diz o extremo oposto do fascismo (e como um trópico circular na política, como definiu Hannah Arendt, os extremos se tocam).

O pensamento da esquerda, então, pode ser resumido como necessidade de aumentar impostos e a força estatal, desde que quem esteja no governo tenha boas intenções. Há duas falácias aí: a crença de que uma pessoa só é rica por explorar uma pobre (que a Escola Austríaca tratou de desmilinguir), e a idéia de que o somatório das pobrezas é igual a riqueza.

O liberalismo, ao contrário, assemelha-se em diversos pontos ao estoicismo antigo. Filosofia de redução da vulnerabilidade, o estoicismo preocupa-se apenas com o que é do seu controle: pensamentos, desejos, impulsos, aversões. O restante, não nos dizendo respeito, não é matéria da filosofia.

Em Aristóteles, a felicidade depende em certa medida da chance e da prosperidade. Apesar de o primeiro componente da felicidade ser a virtude, e esta, uma questão do próprio esforço e disciplina, concretizar a virtude vai além do esforço de cada um. Relações recíprocas dependem em algo além da bondade de cada um. Isso torna a felicidade uma questão menos importante: a virtude, sozinha, purificada, baseada puramente na razão e desligada de emoções ordinárias (como medo e pesar, que se aderem a objetos além do nosso controle), torna-se suficiente para a felicidade.

Um liberal invariavelmente já foi perguntado se acha justo alguns nascerem ricos e outros pobres. O que a filosofia liberal propôs foi um retorno ao homem, ao indivíduo, como sujeito do seu destino. É o mesmo pensamento a que se aferram presos de guerra, e não só pessoas que nasceram pobres (como, diga-se, muitos liberais): cuidemos do que pode ser controlado, mas não se pode esperar que nossa felicidade dependa de o mundo se curvar para satisfazer suas condições básicas.

É claro que, no plano econômico, há compensações para esta desigualdade. Mas o discurso filantrópico da esquerda mascara engodos. A idéia do socialismo não é a boa vontade – eu ter dois casacos e dar um deles ao meu vizinho, que não tem nenhum. O anseio é por controle e centralização: o Estado tomará o que eu e o meu vizinho produzirmos e redistribuirá como bem entender. Até mesmo a fraternidade, que era a mediadora entre a igualdade e a liberdade dos revolucionários franceses, é estatizada.

O liberalismo, mesmo que busque manter o sistema através do mercado, permite graus variados de controle sem redistribuição forçada e a irmandade completa entre seus cidadãos – a quantidade de dinheiro privado em universidades públicas americanas comparada ao que o Brasil consegue com impostos mostra qual idéia é mais vantajosa.

O pensamento da direita, desta forma, resume-se a um adendo à junção de impostos e boas intenções do Estado: quem aumenta impostos e impõe força estatal jamais poderá estar bem intencionado. É inegável que quem conhece as leis de mercado sabe algo a mais do que os estatizantes.

This entry was posted on quarta-feira, julho 21, 2010 at 13:48 and is filed under , , , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

2 pessoas leram e discordaram

O problema do estoicismo é a motivação metafísica, deísta, que sustenta essa atitude desapegada dos seus adeptos; só por isso não fecho 100% com a ideia de um liberalismo estoico. Quando achar/inventar uma corrente filosófica que seja = (estoicismo) - (divindade)+ (liberalismo) me avisa.
Abraço.

21 de julho de 2010 15:06

Herr Schwartz,

Esse conceito é mais ou menos a visão do Francis Fukuyama (e de boa parte da antiga direita hegeliana). Claro que, como hegelianos, estão na lista dos liberais que eu olho com mais resguardo.

Abraço e obrigado pelo comentário.

21 de julho de 2010 16:08

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