Liberalismo estóico 2.0  

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O período helênico foi fértil para o nascimento de diversas escolas divergentes sobre o pensamento da Academia platônica e dos filósofos e pensadores menores que a antecederam. Três escolas se destacaram com magnitude: o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo. A despeito do ceticismo ter ressurgido com força após os desenlances do positivismo recente, as outras escolas parecem mortas e esquecidas.

Contudo, sem nome declarado e sem se reunir em torno de um ideal comum, estas escolas mantêm-se vivas na construção de outras ideologias. O grande debate político hodierno e os fatores que determinam os caminhos tomados pela esquerda e pela direita ainda seguem alguns preceitos definidos pela primeira vez por estas escolas.

O objetivo da esquerda, em linhas gerais, pode ser resumido como uma atitude autárquica e gnóstica – isto é, capaz de, por esforço próprio, ter a total compreensão da realidade humana – que, com graus variados de concentração do poder nas mãos do Estado, é capaz assim de prover os bens necessários para a felicidade dos indivíduos sob aquela jurisdição. Os homens são forçados à igualdade, e sua função é trabalhar, de alguma forma, para a máquina estatal.

O epicurismo, em comparação, é uma visão do homem não dependente de construções sinergéticas para atingir seus fins. O mundo é passível de compreensão pelo homem, e este pode atingir a felicidade, que é a ausência de dor. Para tal, o homem só precisa de si mesmo, sem se valer de instituições, dinheiro ou dos deuses. Todos os homens são iguais, já que essa felicidade sem instituições vale para todos.

Embora pareça haver poucos pontos em comum, a escola epicurista, sem que a maioria dos historiadores atinasse, sobreviveu nos entremeios da filosofia, voltando com força nas mãos de Marx. Para tal, o discípulo de Hegel confiou no mestre, que aplicou as regras da dialética como o funcionamento do próprio mundo – e se a História segue uma linha dialética, ela está sempre se “corrigindo”, sempre progredindo – e sua “conclusão” inevitável coincide com o surgimento do Estado moderno.

Nesse Estado é que Marx aposta todas as suas fichas, ou mais exatamente em sua inevitável derrocada, que progrediria para o Estado socialista. Aqui, talvez sem ser percebido, o epicurismo dita regras, tomando a própria dialética que moveu o interesse no Homem para a definição maior do Estado: o estado independe de instituições externas; tudo é possível de ser entendido pelo homem, através do motor da luta de classes; o homem pode atingir a felicidade, que significa a ausência de dor – ou dessa luta injusta, que terminará quando for implantada a ditadura do proletariado; assim, viverá livre de instituições, dinheiro ou deuses. Todos os homens serão iguais, ou ao menos o Estado assim “garantirá”.

O que concernia ao homem, no epicurismo (embora “homem” ainda não possa ser considerado o indivíduo, a única fronteira sagrada de que nos fala Ayn Rand), passa a ser apanágio do Estado. É onde nasce nossa cosmovisão estatizante, que, sem nenhuma razão, se diz o extremo oposto do fascismo (e como um trópico circular na política, como definiu Hannah Arendt, os extremos se tocam).

O pensamento da esquerda, então, pode ser resumido como necessidade de aumentar impostos e a força estatal, desde que quem esteja no governo tenha boas intenções. Há duas falácias aí: a crença de que uma pessoa só é rica por explorar uma pobre (que a Escola Austríaca tratou de desmilinguir), e a idéia de que o somatório das pobrezas é igual a riqueza.

O liberalismo, ao contrário, assemelha-se em diversos pontos ao estoicismo antigo. Filosofia de redução da vulnerabilidade, o estoicismo preocupa-se apenas com o que é do seu controle: pensamentos, desejos, impulsos, aversões. O restante, não nos dizendo respeito, não é matéria da filosofia.

Em Aristóteles, a felicidade depende em certa medida da chance e da prosperidade. Apesar de o primeiro componente da felicidade ser a virtude, e esta, uma questão do próprio esforço e disciplina, concretizar a virtude vai além do esforço de cada um. Relações recíprocas dependem em algo além da bondade de cada um. Isso torna a felicidade uma questão menos importante: a virtude, sozinha, purificada, baseada puramente na razão e desligada de emoções ordinárias (como medo e pesar, que se aderem a objetos além do nosso controle), torna-se suficiente para a felicidade.

Um liberal invariavelmente já foi perguntado se acha justo alguns nascerem ricos e outros pobres. O que a filosofia liberal propôs foi um retorno ao homem, ao indivíduo, como sujeito do seu destino. É o mesmo pensamento a que se aferram presos de guerra, e não só pessoas que nasceram pobres (como, diga-se, muitos liberais): cuidemos do que pode ser controlado, mas não se pode esperar que nossa felicidade dependa de o mundo se curvar para satisfazer suas condições básicas.

É claro que, no plano econômico, há compensações para esta desigualdade. Mas o discurso filantrópico da esquerda mascara engodos. A idéia do socialismo não é a boa vontade – eu ter dois casacos e dar um deles ao meu vizinho, que não tem nenhum. O anseio é por controle e centralização: o Estado tomará o que eu e o meu vizinho produzirmos e redistribuirá como bem entender. Até mesmo a fraternidade, que era a mediadora entre a igualdade e a liberdade dos revolucionários franceses, é estatizada.

O liberalismo, mesmo que busque manter o sistema através do mercado, permite graus variados de controle sem redistribuição forçada e a irmandade completa entre seus cidadãos – a quantidade de dinheiro privado em universidades públicas americanas comparada ao que o Brasil consegue com impostos mostra qual idéia é mais vantajosa.

O pensamento da direita, desta forma, resume-se a um adendo à junção de impostos e boas intenções do Estado: quem aumenta impostos e impõe força estatal jamais poderá estar bem intencionado. É inegável que quem conhece as leis de mercado sabe algo a mais do que os estatizantes.

Mataremos por um Nobel da Paz!  

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A maior petulância do Homo brasilis é seu vezo em considerar que mora no próprio Eldorado – a terra nova, recém-descoberta, que é, na verdade, a filial terrestre do Paraíso. Envidando esforços estafantes para provar a si próprio que vive no melhor dos mundos (uma síndrome de Pollyana incompleta, visto que ninguém leu o livro), o brasileiro cega-se para a realidade de viver em um país periférico, longe até geograficamente da qualidade de pensamento que deu pasto à civilização ocidental, e conclui, para salvaguarda de sua vitória desprovida de esforços, que é o Ocidente que não conhece as perfeições da Terra brasilis. Assim, não consegue sequer ser uma filial sul-americana de Portugal.

Tudo o que é enaltecido no Brasil são ações que prescindem de esforço, de reflexão, de competição (atividade proibida pelo governo local). O carnaval, a música popular de ziriguidum, a manifestação de massa nas ruas dirigida por algum analfabeto orquestrador de turbas enfurecidas, a inércia sob o calor e a libido vulgar das praias – tudo aquilo que gera propagandas descerebradas de cervejas aguadas, todas elas com o mesmo gosto.

Apenas por estes fatores é que recauchutam a lenga-lenga do orgulho nacional. Isso, e claro, as bundas e o pentacampeonato. É curioso que tudo que é passível de orgulhar o terrestre brasileiro sejam coisas que lhe foram dadas de graça. Assim, qual seria o óbice, além da litania politicamente correta, para que um cidadão tenha orgulho de ser hetero? De ser rico? De ser branco? Foram coisas lhes entregue tão gratuitamente quanto o seu RG.

Pouco afeito e acostumado com a concorrência fainosa que caracteriza os prêmios internacionais, o Brasil corre à margem das engrenagens que permitem o progresso (e todas as liberdades e facilidades) do Ocidente.

O orgulho do brasileiro não é por ser residente no mesmo país de Miguel Reale, Mário Ferreira dos Santos (o homem que mais estudou dialética no planeta), Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa – orgulho este que exige esforço individual no contato com as obras, o que implicaria concorrência e desigualdade no entendimento e interpretação. Mais fácil é ter orgulho de "ser pentacampeão", como se algum brasileiro tivesse se esforçado no campo por isso – e, claro, acirrar conflitos geográficos desconhecendo suas origens, como a tensão com a Argentina (esta pentacampeã em Prêmios Nobel e em Oscars de melhor filme).

A carência de Prêmios Nobel faz mais falta ao Brasil do que as aparências demonstram. Basta ver como nossa intelligentsia foi aguerrida na defesa de José Saramago, único laureado com o Nobel de Literatura escrevendo em língua portuguesa. Imediatamente esquecem-se de séculos fazendo piadas com a burrice portuguesa e praticamente tomam para si esta conquista lusitana, como um prêmio de consolação por falarem (mal) a última flor do Lácio, bela e inculta. É como uma prova de que ainda chegaremos lá um dia, a despeito de nossa Academia Brasileira de Letras (composta por 39 imortais e um morto rotativo, segundo Millôr) ter cadeira para Sarney e Paulo Coelho.

Não é sem pesar que se nota como o tupiniquim culto e urbano desconhece completamente os meandros e maquinações envolvidas em tais prêmios. Descostumado a ler os grandes da literatura mundial que vivem arriscados a ganhar tal prêmio (de Philip Roth a Carlos Fuentes), ou mesmo a obra dos próprios nobelizados na mesma época de Saramago (de Nadine Gordimer a Herta Müller, apenas Coetze e Pamuk tiveram alguma fama por aqui), há uma crença tácita na completa averiguação imparcial da qualidade do autor por parte da Academia – ou há agora, já que antes sabia-se que o maior gênio da literatura nunca ganharia um prêmio se escrevesse em português (é o discurso que defende Drummond e Cabral até hoje).

Enquanto isso, o mundo sabe da intensa politização do Prêmio, sobretudo nas últimas décadas, que preferiu laurear quase sempre escritores aliados à extrema-esquerda e defensores massivos de ditadores sanguinolentos que sobreviveram à queda do Muro de Berlim (Dario Fo, Günther Grass, Harold Pinter, Elfried Jelinek e o próprio Saramago são exemplos notáveis).

Também sabem que o prêmio dado a Saramago foi fruto de uma intensa campanha de marketing que o promoveu na Suécia. A Wiki, em seu próprio verbete, mostra uma cronologia dos eventos que culminaram no Prêmio:

Setembro de 1997 - A agência publicitária sueca, Jerry Bergström AB, de Estocolmo, contratada pelo ICEP - (órgão estatal português para a promoção do comércio e turismo nacional), organizou uma visita de José Saramago a Estocolmo, incluindo:
  • Um seminário na Hedengrens, a principal cadeia de livrarias sueca
  • Discurso na Universidade de Estocolmo
  • Várias entrevistas a jornais, revistas e rádios suecas
  • Nesses mesmos dias, a televisão estatal sueca produziu um programa especial dedicado a Saramago
  • Outubro de 1997 - A Feira Internacional do Livro de Frankfurt tem neste ano Portugal como país em destaque
  • 10 de Dezembro de 1998 - Saramago recebe o Prémio Nobel em Estocolmo
Segundo o "Diário de Notícias", o diretor da empresa sueca Jerry Bergström AB afirmou: "Portugal nunca tinha tido um Prémio Nobel da literatura e uma parte da nossa missão consistia em mudar essa situação".

Com tudo isso à vista do mundo, ainda é fácil para nossos discurseiros padrão, aqueles que criticam facilmente a credibilidade da Wikipedia e confiam em Marilena Chaui, afirmar que as críticas a Saramago são fruto apenas de discordâncias políticas, e que, não tendo seus críticos um Nobel em mãos, deveriam se calar, inclusive para comentar seu "discutível" apoio a Fidel Castro e seu anti-semitismo pouco disfarçado.

(Argumento não despiciendo a ser levado em questão é que, dos escritores que mais desenvolveram a literatura no século XX, a saber: Marcel Proust, James Joyce, Franz Kafka, Joseph Konrad, Jorge Luis Borges, Paul Celan, Virginia Woolf, Julio Cortázar, Rabindranath Tagore, W. B. Yeats, Samuel Beckett e Thomas Mann, apenas estes quatro últimos foram agraciados.)

Mas o desconhecimento brasileiro não é fruto apenas da ignorância de um país periférico, mas de ufanismo perigoso e preconceituoso, que quer simplesmente negar a História assim que a descobre, com medo de sair de sua zona de conforto e encarar uma realidade menos cor-de-rosa ou verde-e-amarela (vide a quizumba gerada pelo Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch).

O fato mais recente dessa ignorância seletiva foi a calamitosa interferência de Lula no programa nuclear iraniano. Setores petistas da intelligentsia brasileira (com o perdão do triplo oxímoro) bradaram o tempo todo que Lula tinha tudo para conquistar o Prêmio Nobel da Paz deste ano.

É verdade. Um assassino em massa como Yasser Arafat o conquistou. Barack Obama, prometendo aumentar o efetivo de soldados no Afeganistão, também (sabe-se bem o que ocorreria se George W. Bush prometesse o mesmo). Até Jimmy Carter, o pior presidente da história dos EUA, também o conquistou.

O curioso é ver como a petistada encara um desastre diplomático como um ganho enorme para o seu candidato (ninguém discorda que Dilma apenas é a candidata do Lula). E como se fosse a primeira vez em que a diplomacia fez algo que presta (e, curiosamente, bem quando ela cometeu sua maior cagada, tomando pitos de todos os jornais que adoravam elogiar o presidente).

Desde o chanceler Horácio Lafer, que guiou a política externa para o desenvolvimento, tivemos vários momentos em que o Brasil mereceu panegíricos internacionais por suas ações.

Azeredo da Silveira manteve o país nos eixos em uma época razoavelmente conturbada como a Guerra Fria, livrando o país da influência cubana e, mesmo assim, foram as primeiras relações "diagonais" com África e China que o Brasil já teve (o que é um furo no mote do "nunca antes na história deste país").

Luiz Felipe Lampréia, seu colaborador e "substituto" nos anos FHC, acabou com uma possível corrida nuclear entre Brasil e Argentina, que poderia causar conflitos sérios na região, numa época em que os dois países brigavam por fatias comerciais e influência na região pelo controle do incipiente Mercosul (que ainda tinha a Alca como grande "vilã"). Foi por sua mão que o Brasil assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que já visava o Irã como ameaça para as décadas seguintes. Também afastou a influência de Castro do regime de Bouterse no Suriname, além de ter sido o mediador da paz (alcançada) no conflito entre Peru e Equador.

É claro que nossos gênios podem simplesmente ignorar o que eles mesmos disseram tão logo seus leitores esqueçam – ademais, estes blogueiros antenados com o progresso que hoje torcem por um Prêmio Nobel da Paz para Lula são as mesmas que, na década de 90, tentavam impedir a globalização... e quem se lembra dessa palhaçada?

Não é demais também saber que os jornais que elogiam Lula mundo afora sempre o fazem por manter a política de seu antecessor, e por se manter dentro da lei, num continente em que poucos presidentes parecem muito inclinados a tal (até mesmo Álvaro Uribe deu para trás neste mister) – ou seja, exatamente pelo contrário das razões que os petistas encontram para adulá-lo.

Para nossos palpiteiros sem história (já que nunca aconteceu nada neste país antes de 2002), é claro que o PT é o único partido capaz de trazer a paz para o globo inteiro. Mas é curioso ver estes torcedores acharem que facilitar urânio enriquecido para um fascista, ditador, apedrejador de mulheres, fanático religioso, negador do Holocausto e incentivador do varrimento de Israel do mapa (para não prolongar demais sua ficha corrida), e que teima a qualquer custo que precisa ter esse urânio, seja uma ação merecedora de um Nobel da Paz.

Ainda é melhor para o Brasil entender de como obter novos prêmios na Copa do Mundo – e esperar pelo hexacampeonato sem sair do sofá.

O feminazismo de rebanho  

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E dever de todo puto egresso do avant-gard das perobagens fascistóides que se convencionou chamar por ciências humanas neste país esclarecer a este escriba quando foi proibido ser um único ser humano pensante em terras nacionais, possuindo um porta-bagos próprio com sua dupla carga e também um único cérebro que prescinda de outorgações e proibições vindo de seus cupinchas superiores.

O busílis em voga é o crime cometido pelo goleiro Bruno, do Flamengo, que etc, etc. O acordo tácito na intelligentsia blogueira é o de que você deve comentar toda e qualquer questão que vire notícia e tema de conversação por mais do que o tempo de uma aliviada na diarréia. Alguns, por fazerem disso a sua paga para o leite das crianças e a pornografia russa por assinatura; outros, porque blog é de graça e é preciso alardear aos quatro cantos da chatura terrestre a sua capacidade de produzir conteúdo – o que traz de volta o tema da disenteria.

A blogosfera torna-se, assim um loop infinito de logorréias sobre os mesmos temas, tratados pelos mesmos pontos-de-vista, repetindo os mesmos chiliques de efeito, com a mesma indiganação extravasada pelos mesmos chistes de sempre. Um mise en abyme cuja única saída é o botão Power. Quererá o leitor saber a opinião de Sílvia Abranches sobre a escalação de Dunga? Ou as justificativas de Amanda Figueira para aprovação da lei do divórcio? E saber das considerações de Eduardo Crespaldo a respeito do uso da burca na França? Eu também não.

Mas a regra é clara: tendo um blog, é sua obrigação postar, mesmo que seja a reprise em câmera lenta da regurgitação do mais do mesmo do que já foi repetido. A corja resvala tão previsivelmente neste regressus ad infinitum que, apesar de blogueiros de estirpes tão diversas umas das outras escreverem todo santo dia sobre o assunto do santo dia, quando ocorre um choque indireto, um verdadeiro conflito de idéias, a azáfama pega a todos de calças curtas, como se tivessem acabado de descobrir vida inteligente na Rede TV.

Porém, como o caso em questão não permite muita polêmica, o comportamento blogosférico foi um tanto quanto melindroso. Basicamente, há ensejo para a indignação – only this, and nothing more. Mas as complexas relações ocultas de poder não escapam ao exame revolucionário dos pensadores brasileiros, que imediatamente tratam de blogar indignando-se da indignação do próximo. Pratico aqui meu dever de cidadão consciente rematando mais um elo nessa corrente de indignação indignada.

Dois textos servem de exemplo do pensamento coletivo e repetitivo que busca causar "reflexão" através de uma vitamina de óbvio ululante: O caso Eliza e a violência de uma sociedade patriarcal, de Mayara Melo, e Eliza Samudio sou eu; Eliza Samudio somos nós, queiramos ou não, de Bruna Scarpioni. O leitor pode se sentir convidado a se embarafustar mais a fundo nos arrazoados apresentados, embora seus títulos já demonstrem serem não criações individuais, e sim alfarrários pré-programados que visam a ideologização mais rasteira sobre o caso do goleiro retalhador. Estas obras não são esforço individual: são sintomas coletivos.

A verborragia é a mesma litania ruminada desde Cabral: não houve um crime realizado por indivíduos com excremento no lugar do cérebro, o que há é uma sociedade pecaminosa, machista, capitalista, neoliberal, conservadora e (há quanto tempo não ouvia tal vocábulo...) patriarcal que gera esses delitos. A síntese do "pensamento" é: a sociedade prepara o crime, o indivíduo apenas estupra, seqüestra, tortura, mata, esquarteja, desossa e dá para o cachorro comer. A patriarcalíssima Igreja Católica deve ter adorado.

O pensamento coletivista só é capaz de agir em rebanho. Agora uma parte do gado quer jogar a culpa do crime em toda a outra parte. Não é permitido ter um único cérebro e uma única bolsa escrotal para pensar "a sociedade". Ainda temos nossos iPod, mas chegamos ao estágio final do comunismo no que se refere ao pensamento: a estatização de colhões.

A grita de nossas amiguinhas é pela forma como trataram a cidadã Eliza Samudio em comentários esparsos internet afora. Foi caso para "tremer de indignação" (peço ao caro leitor desconsiderar objetos que causem tremores em feministas). O que é uma prova, afinal, de que todos nós (refiro-me apenas aos homens, e quanto mais brancos, burgueses e menos estatizantes, maior a culpa) temos nossa responsabilidade no assassinato da ex-atriz pornô.

Ora, segundo as analistas de ética em mídias sociais, é uma atitude chauvinista atentar para a putaria praticada pela Eliza: isso indica que somos homens que "usam", "submetem" e "se aproveitam" do corpo das mulheres (não, ainda não se falou em objetificação). Afinal, essa é a mesma ideologia de uma sociedade que abusa do corpo de uma mulher, a ponto de dar os pedacinhos pra cachorrada.

Seria curioso pensar em um nível um pouco mais profundo do que um pires se é esta a questão nevrálgica em foco. São machos que abusam (?) do corpo da mulher ao praticarem tentativas propositalmente mal-sucedidas de perpetuação da espécie, e filmarem o processo sob títulos como "Até que enfim anal" ou "Violação anal 4". Portanto, uma pessoa (!) politicamente correta deve se indignar deste ato – ou, melhor dizendo, da sociedade que abarca este ato, pois ao reclamar do ato, sem culpar toda a tal sociedade na mesma carrada, incorre-se nas demonstrações de machismo, preconceito e intolerância que indignaram à tremedeira nossas patrulhadoras.

Mas ao dizer: "Putaquemepariu, será que não dava pra essa dona aí se envolver com um macho ocidental e troglodita menos pior?!", já que não tomamos o vitimismo barato que culpa a sociedade produtora de facas, e sim quem pegou na faca pra matar, somos também os próprios culpados pela morte de Eliza. É um caso estranho de culpa (ou seria dolo?), em que temos culpa justamente por culparmos o criminoso.

Pois eu nunca vi sociedade mais respeitosa quanto às mulheres como a nossa. Uma sociedade em que elas podem ganhar para fazer um filme pornô não é machista, é libertadora – nossas feminazis queriam mais o quê? Obrigar essas fêmeas a servir o Exército?

Esta sociedade patriarcal e culpada é a sociedade em que podemos ver casaizinhos indo ver um filme extremamente misógino como O Anticristo, de Lars von Trier, e na saída o elemento macho reclamar da chatice da película, preferindo ver Dragão Branco, ao que é obtemperado pelo elemento fêmea: "Mas o cinema europeu é rico em sensibilidade!"

É a sociedade patriarcal em que Houellebecq pode lançar piadas como "Qual o nome da camada de gordura ao redor da vagina? Resposta: Mulher", sem que consigamos conceber que este indivíduo vá mesmo tratar uma mulher como uma camada de gordura – mas, afinal, exigir que "classes sociais" universitárias possam compreender uma ironia antes de arrotar Foucaults e Bordieus com esgares gazeteados de pseudo-refinamento e compreensão é exigir um elevado grau de força individual em um embrutecido rebanho que se leva mais a sério do que o faria o Canal Rural.

O que o tal patriarcado (incluindo sua parcela feminil) que indignou nossas amigas ao tremelique está fazendo não é senão tratar bem as mulheres que merecem este tratamento, distinguindo-as de marias-chuteiras que, só por serem mulheres, não merecem ser santificadas. É diferenciar uma mulher que vive em função da carteira alheia de Elizabeth I, Vitória, Hatshepsut, Thatcher, Cosima Wagner, Ayn Rand, Hannah Arendt e outras tantas que põem no bolso os homens que as idolatram. É proteger as mulheres que respeitam da influência de indivíduos psicóticos que as vêem como presas em potencial, prontos para tratá-las como um cavalo assim que possam colocar suas (deles) patinhas em seus (delas) corpos.

É, justamente, exigir moral de um ser humano – mas para nosso gado universitário, possuir uma moral é ser moralista, e ser moralista é ser patriarcal e machista, invariavelmente – tendo em mira que ao aquilatar o valor de uma vida pela sua moral acabaremos por tratar com encômios pessoas esforçadas como as acima citadas e tratar com um soslaio de reprovação as outras que buscam uma vida fácil de ascensão por fama, poder e grana – e esta desigualdade de tratamento é considerada preconceito machista, retrógrado, intolerante e autoritário por nossa manada ruminante.

Um assassinato brutal como este está longe de merecer a carga moralizante que o vocábulo "feminicídio" acarreta. Não foi um crime contra uma mulher por ser uma mulher, e sim um aproveitamento de poder e força física de um assassino contra uma presa que viveu de maneira que facilitou sua injustíssima morte. Mas agora até crimes fazem parte de "classes sociais" em luta violenta constante...

Visa-se, justamente, evitar que este tipo de crime absurdo se repita – por isso prefere-se honrar os esforços de uma mulher que está mais preocupada em visitar uma biblioteca a uma que usa o corpo para ascender socialmente – e estas loas implicam, justamente, não ter o mesmo nível de respeito pelas marias-chuteiras. Ninguém tirou a culpa de Bruno, ninguém culpou a vítima (!): quer-se, justamente, destruir as circunstâncias que permitam que este tipo de carnificina ocorra.

Para inverter o sinal e culpar os próprios defensores de uma vida livre de sevícias e violentas sanguinolentas, nossas amigas só podem mesmo é inventar fatos de estro próprio (como aduzir que Bruno obrigou Eliza a transar sem camisinha e tenha exigido um aborto, quando foi até mesmo seqüestrada para abortar contra a vontade), mas elas também têm uma lição de moral a passar adiante. Conclui Mayara:

"Por isso, ao invés de assistirmos passivamente a essa trágica história, devemos pensar sobre a nossa parcela de responsabilidade na violência contra as mulheres. Ela é fruto de uma sociedade patriarcal que naturaliza a submissão do corpo feminino e que reproduz cotidianamente discursos e práticas machistas que perpetuam essa situação. Assim, foram violentos os assassinos de Eliza, mas também foi violento o Estado que lhe negou proteção, a mídia que transformou sua morte em espetáculo e todos e todas que passivamente assistem ao desenrolar da história se achando no direito de condená-la por ser mulher."


Naturalmente, o esquartejamento só pode ter sido fruto de nossa sociedade tão misógina, que não permite que uma fêmea tenha os mesmos direitos civis de um macho. É tudo derivado de nossas práticas machistas, como diferenciar nossas professoras de prostitutas. E a violência vem do Estado lhe negando proteção (o mesmíssimo rebatido argumento de Túlio Vianna, outro feminazista, em texto de 2003, ao defender que o estuprador e também esquartejador Champinha não cometeu crime algum, pois a violência veio do "Estado que lhe negou uma infância minimamente digna") e da mídia, que ficou chocada – ou, exatamente por isso, teria feito um "espetáculo" (Túlio, de novo, continuando a frase: "e a mídia que só enxerga as crianças e adolescentes miseráveis para mostrar a seus consumidores o quanto eles são "perigosos" e com que frieza eliminam uma vida").

Como se vê, nem a ordem do discurso é capaz de sofrer alteração. Não só indivíduos singulares foram proibidos de existir, após a "dissolução do sujeito" de Foucault: é impossível, agora, analisar qualquer aspecto da realidade como um fato novo. É proibido pensar: tudo já está definido numa retórica pré-determinada, feita numa linha de montagem de algum gulag soviético, e só se pode é esmagar a realidade para que ela caiba em seu formato, torturar os números até que eles confessem. Basta ter um discursinho semi-pronto, e condenar a sociedade para acusar um goleiro retalhador rico, ou condenar a sociedade para defender um vagabundo retalhador pobre. Decreta-se o fim da primazia da realidade sobre o preconceito, e volta-se ao bobo argumento da autoridade em nome do progresso.

Mas se é isso que nossas amigas chamam de "reflexão" e é isso que querem, eu reflito: visto que encorajo mulheres a não serem marias-chuteiras e as trato com todo o amor e carinho quando elas se esforçam por uma vida diferente, qual é a minha parcela de culpa neste assassinato?

Nenhuma. Próximo.