Marchando por terremotos  

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A Folha de São Paulo publicou uma reportagem entitulada Fórum Social expressa solidariedade ao Haiti durante marcha em Porto Alegre. É o tipo de manchete que não precisa ser nem lida para provocar comoção pública:

Aaaawwwwnnnnn, ti fofo!!! *_*

O Fórum Social Mundial foi criado em 2001 para nos avisar sobre os perigos que o neoliberalismo, então em voga, traziam ao mundo.

O neoliberalismo, do qual passamos toda a década de 90 ouvindo falar. O neoliberalismo, esse monstro horrendo, que foi a causa da pobreza, desemprego, desigualdade, guerras, fome, morte, peste, cãncer, genocídio, câncer de pulmão, náusea, diarréia e gravidez indesejada mundo afora. Aquele neoliberalismo inventado por gente que vota no FHC.

Os principais nomes do neoliberalismo são:

*bola de feno passando*

Fora esses, mais um monte de gente de quem nunca ouvimos falar. Mas são sempre culpados de tudo. Há décadas sabemos disso. Mesmo sem nunca ter ouvido falar de Hayek, Mises, Voegelin, Scruton, Rothbard, Morgenstern, Friedman, Greenspan e as discordâncias internas entre eles.

Sobretudo, sem nunca levar em consideração que países saíram da pauperização extrema e se tornaram ilhas de pujança em meio ao nada o fizeram aumentando suas instituições liberais - da irlanda a Cingapura, qualquer IDH é prova viva.

Mas é curioso analisar mais de perto o que pensam os amigos do Fórum. "O Haiti precisa de comida. Não de soldados", dizia um dos cartazes. Curioso que em favelas com criminalidade acentuadíssima como Cité Soleil
, que fariam a Rocinha parecer uma filial do Éden, o Exército mantendo a ordem e aumentando a paz seja uma coisa ruim... não é curioso que as missões de paz da ONU tenham tantos militares? E que tenham trazido uma certa estabilização a um país sem, ora, Estado há mais de 2 séculos?

Sabemos da verdade: querem reclamar, sempre, per fas et per nefas, do "imperialismo" dos EUA - tanto é que, no meio dessa balbúrdia, levantam cartazes em solidariedade à Palestina, ignorando a repressão pega-pra-capar que ocorreu devido às fraudulentas eleições na ditadura teocrática do Irã, que já matou dezenas de manifestantes contrários a um ditador... e, naturalmente, acreditam que os EUA não querem ajudar, e sim ocupar o Haiti. Igualmente curioso que a maior potência militar do planeta tenha precisado esperar um terremoto para enfrentar o glorioso Exército haitiano...

Isso, é claro, sem falar em termos práticos: o PIB do Haiti é
US$: 1.291 per capita. O do Piauí, R$ 4.213 per capita, o pior PIB per capita do país. Uma consulta à Wikipedia e perco a vontade de ir marchar no FSM.

Mas... marchar pelo Haiti? O Haiti precisa de alimentos? Vejamos: as FARC são bem ricas, e totalmente, diz-se, "sociais". Quanto foi que elas doaram? E Lula, oras porras, não doou nada para o Haiti - pegou fundos de reserva públicos e mandou pra lá. Nosso dinheiro. Muito legal, mas... tirou um prostituto furado do próprio bolso para enviar ao povo haitiano? Eu voto na Gisele Bündchen pra presidente.

Tem também a velha conhecida comunidade GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Velha conhecida? Eu já não sei em que versão está essa sigla. 4.5 beta? Ainda aguardo a versão mais democrática GLBMTTTNCS: Gays, Lésbicas, Bissexuais, Metrossexuais, Travestis, Transformistas, Transexuais, Necrófilos, Coprófilos e Simpatizantes.

De toda forma, o estudante Calimério Júnior afirmou: "Essa caminhada sintetiza o Fórum. O grande sentimento aqui é a essa diversidade, a partilha com os outros movimentos. E isso dá muita energia para o trabalho ao longo do ano". Aqui na redação, entendemos tudo, exceto a parte "trabalho".

Enquanto isso, outra questão preocupante:

o representante da Marcha da Maconha, Laurence Gonçalves, aproveitou a caminhada para defender o "controle público do uso das drogas"

Ora, poderia haver motivo melhor para marchar? Só falta explicar quem da "sociedade" irá controlar as drogas - e, sobretudo, no que isso fará alguma diferença do modelo atual.

Mais:

Entre os novos hippies da comunidade alternativa Aldeia da Paz, um homem coberto de lama chamava a atenção. "É a expressão da nossa relação de amor com a mãe terra".

Uma imagem vale mais do que mil palavras.


Luciana Genro, filha do Tarso, deputada federal mais famosa pelo seu penteado do que por sua cabeça, foi taxativa:

"É preciso que os movimentos sociais se unam em torno de suas reivindicações, independentemente de haver pessoas de partidos diferentes no movimento. As lutas são comuns."

Lutas comuns, na esquerda? Isso é assaz discutível. Se a esquerda, por definição, quer acabar com todos os problemas do mundo concentrando o poder em suas mãos, é claro que a sua luta terá sempre
inimigos comuns, mas nunca internamente, pra ver quem controla mais quem, quem tem o melhor jeito de dar uma melhor vida para 6,5 bilhões de pessoas do que outro.

Não é preciso exprobar erudição para lembrar que foi assim em toda a história: no fim, um grupo de anarco-punks (existe outro tipo de punk?!), o grupo defendeu "autonomia", recusando que empresas privadas financiassem o movimento.

Empresas privadas financiam o FSM, entenderam? E Lula também sairá do FSM, aplaudidíssimo, direto para Davos, para também ser aplaudido por fazer o contrário: manter as políticas econômicas de FHC, que resumem tudo o que deu certo em seu governo.

E depois que digo que no Brasil não existe direita, só uma velha luta entre a extrema-esquerda, a extrema-extrema-esquerda e a extrema-extrema-extrema-esquerda, me chamam de fanático. Eu, né?

Quem ganhou a década?  

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O ano é 2010 e o sujeito entra numa livraria. Os títulos de destaque são Fascistas de Esquerda, de Jonah Goldberg, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, Sangue Azul, de Leonardo Gudel, História do Brasil com Empreendedores, de Jorge Caldeira, Olho por Olho, de Lucas Figueiredo. Elite da Tropa vende há mais de 3 anos, e até na seçao de Filosofia temos em destaque o mistifório Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, de ninguém menos do que Olavo de Carvalho. Há livros de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Mário Sabino entre os mais vendidos. Autores conservadores têm sua obra relançada cada vez mais por alta demanda, de Mario Vargas-Llosa a Eric Voegelin, de Mário Ferreira dos Santos a Roger Scruton. Ateus famosos, como Christopher Hitchens, S.E. Cupp e Luiz Felipe Pondé, são todos de direita.

No cinema, títulos como Cidadão Boilesen, Ninguém Sabe O Duro Que Eu Dei e Reparação (a ser lançado em breve)
revisam cada vez mais o papel "heróico" da esquerda revolucionária na ditadura.

Em pleno pós-crise, a onda é falar de Bolsa de Valores. Até mesmo a auto-ajuda cuida cada vez mais de finanças e empreendedorismo.

Piñera acaba de levar o título de presidente do Chile depois de 20 anos de esquerda no poder. No Brasil, em qualquer cenário cabível, Serra leva vantagem para ser o próximo presidente, podendo ter como vice até uma senadora do DEM como Kátia Abreu. Uma tentativa de golpe bolivariano em Honduras foi rechaçada. Em toda a América Latina, há uma lenta guinada para a direita após Uribe, exceto em países que já demonstram claramente sua face de ditadura socialista com eleições de fachada, como Venezuela, Bolívia e Equador. A atuação do Foro de São Paulo passa a ser discutida cada vez mais publicamente, enquanto o MST tem rejeição da
maioria absoluta da população.

O ano é 1995. Todo o cenário acima é multiplicado por -1. A grande discussão envolve os malefícios do neoliberalismo (que, curiosamente, deu as caras na América Latina apenas no Chile, e numa versão populista na Argentina). O povo teme pelas privatizações, que supostamente vão dar de graça patrimônio público nacional e acabar com empregos, sem falar na qualidade despencando dos serviços.

A leitura é calcada em Eric Hobsbawn, Alain Badiou, Giorgio Agamben ou Antonio Negri. O que ocorre e se discute fora da extrema-esquerda revolucionária/fabiana é sumariamente limado pela intelligentsia brasileira, como o lançamento d'O Fim da História, de Francis Fukuyama. Marilena Chaui e Paulo Arantes dominam o curso de Filosofia da USP como a única saída contra a nossa miséria econômica e intelectual, sem nunca precisar comentar o que escrevem seus críticos mais aguerridos, como José Guilherme Merquior, Paulo Francis ou Olavo de Carvalho.

O que foi que aconteceu?

Mudanças de pensamento, sobretudo guinadas em direção oposta de toda a população "pensante" (o que, em se tratando de Brasil, abrangeria, na verdade, cerca de 0,08% da população) levam, em média, uma década de propaganda para mudar as cabeças, mais outra década de mudanças para se alcançar resultados.

No Brasil, um país em que a "direita" são partidos de centro-esquerda, tudo acontece ao contrário. O "neoliberalismo" é acusação de adversários de um partido que sequer liberal o é, as privatizações e o câmbio flutuante, tão criticados, são o que destrói a inflação e os preços altos, colocando muitas pessoas na zona economicamente ativa, e, com os resultados vindo antes das ideias, comemora-se os triunfos e critica-se as causas que os possibilitaram.

Não são mais professores nem idéias dominantes nas Universidades que moldam a cabeça de alguns jovens, que vão se agigantando cada vez mais. São interpretações sobre os fatos de que eles mesmos tiveram de correr atrás. Nenhum professor procurou ensinar Jouvenel ao lado de Marcuse, Hayek ao lado de Marx, Rothbard ao lado de Keynes (que, para nossa simpática extrema-esquerda, é alguém "de direita"). Mas os próprios alunos cansaram da litania acadêmica e procuram estes autores por sua própria conta e risco.

O que sobra para a esquerda é se apropriar de programas sociais que sequer foram criados por ela própria (o Bolsa-Família foi criado por uma equipe de economistas que incluía Ricardo Paes de Barros, um "tucano neoliberal", enquanto os programas genuinamente petistas, como Meu Primeiro Emprego e Fome Zero, derivados do Instituto da Cidadania ligado ao PT, deram com os burros n'água apresentando propostas esdrúxulas, como um fundo alimentado por taxas em gorjetas de restaurantes).

Algo do que está nas livrarias, hoje, seria simplesmente concebível há uma década e meia? Um filme como ROTA Comando, baseado no livro Matar ou Morrer, de Conte Lopes (colega de Ubiratan Guimarães), teria capacidade de chegar aos cinemas brasileiros? Seria possível alguém, durante o governo FHC, se considerar neoliberal e um estudioso acadêmico de Humanidades, a um só tempo?

A década de 2000 foi, inversamente, a época de colher os primeiros passos de uma abertura incipiente para o livre-mercado no Brasil. A década de 2010 começará como a década em que as idéias liberais cada vez mais tomarão corpo sobre nossa elite intelectual, o que deveria ter ocorrido antes.

Afinal, é preciso uma grande integridade psicológica para sequer saber o nome de alguns autores liberais e/ou conservadores num país em que a social-democracia é coisa direitista, a ser rechaçada a muque. E este darwinismo intelectual implica um liberalismo bem mais fortinho para esmagar a esquerda onde quer que ela ainda não tenha virado uma ditadura na década de 2020.

Pequena nota: FHC é melhor que Lula  

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Entrevista sobre a liberdade de imprensa e a censura ao Estadão, no próprio Estadão:

Estado: Na Presidência, teve algum assunto que o sr. gostaria que tivesse sido censurado?
FHC: Nunca. Olha, aguentei durante dois anos uma chantagem de um negócio chamado Dossiê Cayman. Eu, o Mário Covas. Uma chantagem. Aquilo apareceu como se fosse uma possibilidade, sem que ninguém tivesse dito de onde saiu o dinheiro. O que eu fiz? Fui para os tribunais. Para reclamar não da mídia, mas de quem tinha feito. Aliás, diga-se de passagem, até hoje não fui julgado. Está errada também essa morosidade das decisões. Mas vontade de censurar, nunca.

...

Você realmente espera Lula dizer isso um dia na cara de Larry Rohter?