Classe média e a dona Zelite  

Posted by Flavio Morgenstern

Dizem que "esquerda" e "direita" são rótulos já desgastados. Costumo dizer que, politicamente, querem dizer muito pouco (autoritarismos e democracias ocorreram sob ambas as égides), embora economicamente a diferença seja gritante.

Se a esquerda, seguindo a linha econômica marxista, prevê o Estado como um controlador das transmutações pecuniárias, em vistas de uma "distribuição igualitária de renda", as direitas, no mundo todo, confiam em linhas de controle mínimo de mercado, onde há momentos de crise freqüentes, acúmulo e perda de bens com o passar do tempo, especulação financeira, a tal da "desigualdade" e diversas outras palavras assustadoras, mas que permitem a evolução da sociedade.

Nesse aspecto, ser "de direita", atualmente, implica, cada vez mais, numa busca por um Estado mínimo e menos burocratização do mercado, a se iniciar por diversas privatizações. Ser "de esquerda", por outro lado, implica em maior controle estatal, planificação econômica, cerceamento à livre iniciativa e câmbio controlado, dentre outras coisas. O que é a "extrema-direita" econômica são as políticas de privatização acelerada, com um Estado de pulso firme mas atuação reduzida - como segurança ou meio-ambiente -, enquanto a "extrema-esquerda" preza o modelo castrista, chavista, stalinista e de diversos outros líderes que optaram pelo mais completo controle estatal.

Não à toa que o Nazismo, indo contra o liberalismo econômico em diversos aspectos, tanto perseguiu os judeus que controlavam as instituições financeiras na Europa, e mesmo hoje organizações (neo-)nazistas são vigorosamente contra o neoliberalismo. O Nacional-Socialismo aproveitou o formato de "S" da suástica para imprimir seu Socialismo - apesar do suposto capitalismo nos países dos fascismos do séc. XX, as empresas podiam ter autonomia especulativa, mas nunca produtiva - é só analisar como a República de Weimar controlou a produção, de alimentos até armas, em indústrias como Bosch, Volkswagen ou Bayer.

No Brasil não se lê Weber, Irving Kristol, Paul Wolfowitz ou Francis Fukuyama. No máximo, estudantes de Economia, que são um caso a parte. No Brasil também não se lê Marx, mas todos o seguem como crentes seguem Jesus sem entender suas parábolas. Karl Marx foi um pensador muito importante, que tirou a filosofia das torres de ébano e a trouxe para a realidade mais abjeta. No entanto, seu modelo econômico foi uma dura crítica ao capitalismo europeu pós-Revolução Industrial, e nada mais. Este mesmo país que grita "Fora FMI e o neoliberalismo!" desconhece o Consenso de Washington.

Para isso, há uma diferença entre ricos e pobres. Quem diferencia? A classe média, que está no meio. Quem é a classe média? É a imensa maioria da população produtiva do país. Em grandes centros urbanos, a maioria absoluta das pessoas é de classe média. São aqueles que você maie encontra espremidos nos metrôs, aqueles que lêem livros de auto-ajuda e vão em centros espíritas, que lêem jornais e assistem Big Brother, compram no shopping e pechincham na quitanda.

A classe média sempre foi assim. É sua prerrogativa mais deliciosa: não vive num afetado e irreal mundo de privadas de ouro como os gigantes empreendedores internacionais, não anda de helicóptero, não vai passar um fim-de-semana na Grécia quando se deprime. Anda de ônibus, conhece muita gente pobre, se indigna com a fome na África, não entende lhufas de Bolsa de Valores, quebra todos os limites de cheque especial e empréstimos bancários.

É a classe que mais lê. As grandes revoluções mundiais, que foram orquestradas por pensadores, tiveram "os do meio" como massa de manobra - é só pensar na Revolução Francesa. É a classe, afinal, com mais liberdade de pensamento. Isso implica que, ao contrário do proletariado e da "elite dominante", pensa com liberdade e não se entende nunca. Já viu alguém criticando a classe média? Eu já. E todos eles eram de classe média. Quando começa a pensar em teorias mais globais, com visão "de fora", não se importa em ir contra si própria. Quem lê o Estadão é a classe média. Quem lê Caros Amigos, também. Na maioria das vezes, ganham o mesmo.

Como se diferencia o pensamento "de esquerda" e "de direita" aqui? Parece complicado. Pelo IBGE, existe um "piso salarial" para a classe média "alta": R$3.800,00. Ajuda? Não: Conforme publicou a Folha, existem mais "pobres" (5,9 milhões) andando de avião do que “ricos” (5,6 milhões). Ao contrário do que diz a esquerda, não é um problema da dona Zelite... É gente cheia de contas pra pagar que padece nos aeroportos. Sem falar em quantos seres estão a falar em comunismo de dentro de seus BMWs e com o diploma de Direito na parede...

Porém, se alguém da classe média tende à direita, é "reacionário", "burguês" (cof, cof) e "elitista". Se alguém ganha até mais, acumula mais capitais, mas tende à esquerda, perde todos esses adjetivos. Assim é que se pensa. O que chamam de "elite dominante" pode ser a econômica, que é muito pequena, ou o pensamento que chamam "elitista", que é um pensamento de classe média, também se matando para pagar o aluguel. Mas só é elitista quando é dos outros...

É fácil encontrar quem é de esquerda: são aqueles que acreditam que, se algo deve mudar, deve mudar através do Estado. Se algo há errado, o Estado deve intervir. Se alguém perde dinheiro, é culpa do Estado (ou melhor, do partido dos outros). Se alguém ganha dinheiro demais, é mais um cacique da Zelite que deve ser combatido.

O nível de controle da esquerda é tamanho que, quando está no poder, não importa em qual democracia, confunde os votos que recebeu com o próprio anseio da população. Mistura governo com partido. Sempre. Um exemplo bem claro aconteceu nessa semana: a manifestação vaiando Lula.

Quem sabe fazer manifestação no Brasil? A esquerda, sempre a confundir seus ideais com seu partido. Alguém pode se lembrar de alguma manifestação "Fora FHC!" que não tenha sido organizada por algum sindicato, que não tenha tido diversas bandeiras do PC do B, PCO, PSTU e PT (o PSOL inexistia, ainda)? Nem eu. Contudo, a classe média, ou melhor, "a zelite dominante" fez sua manifestação anti-Lula, dessa feita.

O que era de se esperar? Bandeirolas do PSDB e do DEM para todos os lados? Não. Uma pessoa tentando distribuir bandeiras tucanas foi vaiada junto com Lula, em São Paulo. Esse é o estilo "burguês", classe média, de ser: está sempre sozinho, sem assistência do Estado, mas sempre é quem pensa e quem critica. Quem está na luta contra ditaduras injustificadas e contra a corrupção. E não precisa de um partido ou um veículo de comunicação para organizar sua indignação, como acontece com a esquerda mequetrefe e sua turba enfurecida.

Qual foi a resposta de um membro da classe média esquerdista? Obviamente, sentiu que falavam com o PT. E, como sempre, tomou as dores de seu partido, acreditando que este partido, agora de situação, ganhou uma espécie de poder absolutista dos deuses. Agora, quer acreditar que, para se criticar Lula, é necessário ser tucano. Como se o PSDB fossem "de direita"...

Foi criada uma "sátira" à campanha do "Cansei", da OAB. O título no Youtube é "CANSADOS" DE CONTAR DINHEIRO E SONEGAR IMPOSTOS SEUS VIADOS (sic). A classe média sabe pensar sozinha, sem hastear a bandeira de um partido. Mas acaso a esquerda sabe? Vejam com seus próprios olhos.



Fazer algo por suas próprias mãos, sem pedir ajuda ao Estado. Deu pra entender o que é "direita", agora?

This entry was posted on quarta-feira, agosto 08, 2007 at 14:23 . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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