Habemus Papam  

Posted by Flavio Morgenstern

frase do dia: "Nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros" - Jonathan Swift


O papa está entre nós. Todos falam do Papa. Por falta de algum assunto melhor, resolvi também falar. O que está em jogo não é religião, é política. Diria que sequer é política: é comportamento. São as ligações dos indivíduos com as instituições que o cerceiam. É a visão que temos dentro de nós, que passamos ao próximo em nossa relação com ele e que nos agrilhoa e nos guia.

Joseph Ratzinger foi minha decepção internacional em 2005. O "Papa Panzer", bom de briga, ortodoxo em sua moral rígida, contrário ao expansionismo da Igreja - esse cardeal bom no ataque agora é um Papa jogando na defensiva. Todos temiam a eleição de Ratzinger por este representar a ala mais conservadora do episcopado. Enquanto se esperava, na melhor das hipóteses, acobertamento das denúncias de pedofilia, punições rigorosas dentro da hierarquia eclesiástica e o fim da Renovação Carismática Católica (e, na pior das hipóteses, alguns caraminguás para financiar a nova Guerra do Golfo), vimos apenas um velhinho simpático, desfilando de Prada e Gucci, pedindo paz na Terra, lançando uma Encíclica sobre o Amor e pedindo desculpas ao mundo islâmico por declarações que geraram desentendimentos.

Não fico feliz com uma Igreja carismática e expansora. Fico feliz com uma Igreja sendo o que é: um lugar de silêncio e sobriedade e com uma ritualística deficiente - em suma, um local chato demais para ser levado muito a sério.

Em sua visita ao Brasil, apesar de toda a paneleirice discutida, nada aconteceu de novo. Está tudo como previsto, elemento por elemento:

  • O esquema de segurança é o mais caro já feito, como o próximo será mais caro ainda;
  • O papa não beijou o chão brasileiro, por velhice (do chão);
  • O papa fala português melhor que o Lula;
  • O papa-móvel transformou o trânsito num Inferno;
  • O Mosteiro de São Bento não sofreu uma reforma;
  • O papa mal abriu a boca e já falou de eutanásia e aborto;
  • Grupos de satanistas fizeram piquete na frente dos locais onde o papa se apresentava;
  • A Igreja continua alicerceada em rituais vazios. A diplomacia também.

Previsível como horóscopo de jornal. A visita de Bento XVI tem objetivos claros. Expandir a Igreja. Celebrar a vida. Reafirmar a imutabilidade dos valores da Igreja. Em suma: manter o status quo. Como não tem mais graça ser papa parado em Roma, é preciso manter o status quo viajando por aí.

A Conferência dos Bispos realizada em Aparecida do Norte, reunindo autoridades católicas de toda a América Latina, é mais uma liturgia vetusta típica, em que se falará sobre os valores da Igreja para todos aqueles cansados de saber dos valores da Igreja. Condernar-se-á o sexo sem fins reprodutivos, o aborto e a eutanásia, por razões consuetudinariamente conhecidas. Como é de praxe no Cristianismo, o discurso é manjado, mas a retórica é de primeira qualidade.

Agora, faz-se um rebuliço pelas declarações do papa. Isso afeta seu rebanho? Não, ele já vive entre as linhas limítrofes dos dogmas católicos há tempos. Apenas há a experiência estésica de ter o próprio papa por perto. Isso afeta quem não está em seu rebanho? Aproximadamente o mesmo tanto que Osama bin Laden ao pedir para as mulheres cobrirem o rosto, os rabinos ao não comerem carne de porco ou os testemunhas de Jeová não doarem sangue. Isso afeta o panorama político? A questão parece um pouco mais complexa.

É sabido que o Brasil é o maior país católico do planeta, que a Igreja possui um poder pecuniário avassalador e que seu séquito tem o macambúzio atributo de se emocionar com uma facilidade não muito sóbria. Nenhum governante, portanto, enfrenta a Igreja de peito aberto. Foi para aproveitar essa vantagem estratégica que Bento XVI veio soltar o verbo por essas bandas? Eu duvido.

Essas discussões já estão em voga há muitas décadas. Não é uma discussão sobre aborto que está emperrada no Congresso por ser um tema delicado - é o próprio Congresso que está emperrado por ser ineficiante. Não se consegue discutir uma questão urgente como a maioridade penal, que dirá um assunto de uma grandeza filosófica que nenhum parlamentar parece compreender. O papa pede ética, pede respeito aos direitos civis, pede garantias à vida. Não é preciso ser católico para ter ali um aliado.

O papa pede um comportamento específico. Essa disciplina pode ter valores religiosos questionáveis, mas é uma disciplina. Se há algo que o Brasil precisa aprender é a refletir e construir um código moral que não seja baseado apenas em prazer.

O papel de um papa é esse: ser um arauto da Mensagem Divina. Por isso o conclave o define por méritos de vida. É uma bela lição que a Democracia não aprendeu. A eleição é fechada pois quem vota também precisa ter méritos. Se a Igreja se guiasse pelo sufrágio universal (e, quiçá, obrigatório), já teríamos um Padre Marcelo Rossi como Sumo Pontifície. Lembrando que Rossi ficou conhecido pelo mesmo marketeiro que reformou Sandy & Junior e cuida das atrações do Faustão.

Mais uma variável se encontra: o Catolicismo é a única religião que permite "graus de crença". É-se católico, mas não se acredita em tudo. Os rituais envolvem água na testa e assinatura num livro, hóstia com vinho e confissões, mas ninguem precisa praticar com freqüência. É só se arrepender antes da morte e está tudo encaminhado para o Paraíso. Você foi batizado mas não sabe nem rezar Salve, Rainha? Não há o que temer: pelo IBGE, você já é um católico.

Isto posto, cabe o recado aos católicos. O papa não contém a verdade de Deus. É apenas alguém escolhido pelos grandes estudiosos devotados ao tema. A visão do papa sobre o que é uma vida ou sobre a guerra não deve ser considerada fixa: deve, sim, ser discutida. Jesus considerou Pedro seu primeiro papa para espalhar sua mensagem. O "sua" refere-se ao próprio Jesus, não a Pedro. Enquanto Jesus ainda mantinha esperanças de continuar vivo, não definiu papas.

Contudo, é de-se admirar uma autoridade calcada em rituais vazios, mas que ainda sabe que o mundo precisa de um comportamento mais ético sem ter de pedir religiosidade. Enquanto isso, vemos nesse país um Governo calcado em rituais vazios, em avanços só existentes em sua metafísica interna (passível das melhores discussões bizantinas) e que pede indulgências e muito mais do que o dízimo da população, ao mesmo tempo.

Em tempo: Lula conversou com Ratzinger. E já está famoso por mais uma pérola: pediu ao papa para rezar pelo Corinthians. Espero que o papa tenha pensado em Coríntios I e II.