Eu nunca tive nada da Apple - na verdade, só usei o Safari por um tempo para poder ter um navegador só para o trabalho, e tentei sem sucesso trocar o Winamp pelo iTunes. Odiei ambos. Felizmente, isso não me impede de reconhecer que nessa quarta-feira, o mundo perdeu um dos maiores gênios que teve em gerações.
Steve Jobs (1955-2011) foi um homem só comparável em seu reino a figuras do porte de Thomas Edson, Henry Ford, Isaac Newton, Albert Einstein, William Shakespeare, Leonardo da Vinci, Charles Darwin e outros que mudaram o mundo, mesmo que você também não tenha nada da Apple - ou da Ford, ou pouco entenda de Teoria da Relatividade.
Nosso mundo é um grande contexto histórico. Não é possível e nem desejável furtar-se ao que a tradição e a história nos legaram. Neste sentido, somos todos positivistas, estruturalistas, psicanalistas, marxistas, keynesianos, neoliberais, feministas, modernistas, industriais, darwinistas - este é o mundo em que vivemos. Se formos criticá-lo, é a partir dessas teorias que vamos trabalhar. Cada uma dessas palavras tem um sentido mais ou menos aceito coletivamente. Essas teorias, para o bem ou para o mal, passaram a ser o que deveria ser debatido a partir do momento em que surgiram - é isto, aliás, o que explica por que o darwinismo, com todas as suas falhas, ainda é uma teoria adulta tout court, enquanto o criacionismo só merece o título de "teoria" por uma ultra-civilizada amabilidade semântica, nunca demonstrada pelos criacionistas na História.
Nosso mundo é o mundo de Steve Jobs. As últimas três décadas (um pouco a mais do que o tempo em que o mundo tem a honra de me conhecer) testemunharam eventos decisivos numa velocidade nunca antes vista: a derrocada do socialismo com a queda do muro de Berlim, o surgimento dos diversos blocos econômicos,
o absurdo crescimento populacional, a computação pessoal, a internet, o 11 de setembro, a crise de 2008, a Playboy da Maitê Proença. Estes eventos geralmente dependeram de uma coletividade - mas a genialidade da idéia da computação pessoal, Playboy da Maitê à parte, foi obra de um punhadinho de indivíduos tendo como um dos orquestradores Steve Jobs (ao menos creio que o crescimento populacional não foi obra só de uns poucos nerds bilionários, mas posso estar enganado).
A maior parte dos avanços tecnológicos da humanidade dependeu de uma única mente que melhorou a vida de milhões, bilhões de pessoas. Quando algumas dessas inovações aparecem juntas e confluem na mesma direção, temos uma verdadeira revolução, como foram as duas Revoluções Industrias, a linha de produção fordista, a automação, o BuddyPoke do orkut. Nenhuma novidade que trouxe melhoria na vida das pessoas foi obra estatal, com exceção dos experimentos militares. A despeito dos que rugem à qualquer gasto militar promovido, da penicilina à viagem à Lua, da bomba atômica ao leite condensado, foram os militares os únicos cientistas a promover melhor qualidade de vida via estatal no mundo. Até hoje o ITA é a maior faculdade tecnológica brasileira com explicação auto-evidente.
A internet também surge como experimento militar. A computação fluía naquela época em grandes universidades americanas, alimentadas por empresas de comunicação que eram pagas tendo os melhores nomes em seus quadros e ganhando concessões para atuar em escala continental. A ficção científica da época temia que, aliadas a robôs, umas poucas mentes malévolas iniciariam o apocalipse fazendo com que uma população já parecendo incivilizada tivesse de enfrentar máquinas poderosíssimas que era incapaz de dominar.
Um dos principais nomes entre os raríssimos a nadar contra essa corrente foi Steve Jobs. Sem medo de computadores, quis levar a computação para a população. O primeiro computador pessoal que surgiu no mundo foi da Apple, empresa surgida na garagem de seus pais adotivos e hoje empresa mais lucrativa do mundo, vencendo o PIB de muitos países. Jobs acaba justamente com o medo dos computadores, essas máquinas que pareciam mais complexas do que o painel de um Boeing 747. A revolução que surgiria daí seria sem precedentes na História.
Não é preciso usar iPhone, iPod, iPad e ver os filmes da Pixar para agradecer a Steve Jobs como o herói que foi. Se os críticos das primeiras Revoluções Industriais notavam a perversidade do modelo por concentrar a propriedade dos meios de produção nas mãos de alguns poucos, talvez nem Jobs e nem ninguém poderia imaginar que criariam o primeiro produto para massas que era, afinal, um meio de produção.
Há hoje muitas profissões que fazem uso do computador. Desde webmasters, programadores, analistas de sistema e de mídia até jornalistas, publicitários, tradutores, ilustradores. Algumas profissões simplesmente não existiriam sem a computação pessoal (seriam escassos altos postos preenchidos a dedo em alguma grande corporação), enquanto um novo meio de produção para outras profissões foi lhes dado por menos do que o salário que ganham em um mês trabalhando para outrem. Não é preciso mais do que um computador e internet para se criar um blog, um site, ou para ter as ferramentas que um webdesigner precisa para seu trabalho. Não gostaria de saber o preço de uma imprensa para saber quanto me custaria atingir a quantidade de leitores que atinjo com essas linhas.
Steve Jobs, assim, encarna mais do que a perfeição o ideal dos criadores de riqueza, capazes de mudar o mundo, como mostra Ayn Rand em seu grande romance A Revolta de Atlas. Seus grandes personagens, como John Galt, Dagny Taggart, Hank Rearden e Francisco d'Anconia são arquétipos, ainda que caricatos, do produtor, encarnado pela figura do industrial no último século.
É preciso entender com cuidado o que significa "riqueza". A palavra faz com que se pense que, existindo ricos e pobres, o único problema se refere a distribuir o dinheiro existente.
Tal como um homem não é a soma de seus órgãos,
ou o amontoado das peças de um Honda Civic não é capaz de levar ninguém para o trabalho, a riqueza também não é o somatório do dinheiro do mundo. Não se pode pensar que tudo o que pode ser trocado por dinheiro já exista no mundo, sendo tomado por alguém. Ninguém cria matéria. Supor que toda a riqueza do mundo já exista, precisando apenas ser distribuída, é pensar que tudo o que o capital pode comprar é sempre o mesmo, desde os homens das cavernas até hoje. E com a pequena população que existia nas cavernas, seria conclusão inescapável que foram os homens mais ricos que o mundo já teve, embora ninguém queira viver com o que viveram.
Como bem conclui Milton Friedman, em Capitalismo e Liberdade, o preço dos produtos está nas idéias, e não na matéria-prima. O Vale do Silício reúne as empresas mais caras do planeta baseando-se no segundo elemento mais abundante do planeta. Uma idéia da mente de Bill Gates e Steve Jobs vale mais do que todas as matérias-primas de seus produtos - qual, aliás, é a matéria-prima de um DVD de instalação do Windows, que o torna tão diferente do DVD de um filme, para ter um preço tão dispare?
Se o dinheiro é uma medida de produção, melhorar a vida das pessoas, lhes dando a oportunidade de terem mais produtos, significa criar produtos mais baratos, para que elas possam tê-los sem precisar trabalhar o que duas pessoas trabalhariam para juntar o dinheiro para aquele produto. Há duas formas de se fazer isso: com meios para se criar mais, ou mais rápido. A complicação é que ao mesmo tempo em que os meios para aumentar a produção significam encarecimento do processo, o fato de haver mais produtos para venda no fim do processo significa mais dinheiro em retorno. Portanto, o criador do novo processo corre um risco muito grande com sua idéia - por isso é tão arriscado criar uma empresa, e por isso costuma-se falar de especuladores como malévolos magnatas todo-poderosos, mas não se costuma ter coragem para investir em empresa alguma.
A Apple se arriscou muito supondo que as pessoas teriam computadores pessoais na década de 80, em que a idéia de um videocassete soava como uma interatividade nunca antes vista entre mídias.
Arrancar todo o dinheiro que Steve Jobs faturou no processo (junto a outros nomes como Bill Gates, Larry Ellison, Larry Page e Sergey Brin) e distribuí-lo igualitariamente não causaria
a melhoraria na qualidade de vida da humanidade que as idéias da Apple, da Microsoft e do Google provocaram. Apenas cada pessoa teria uns US$100 a mais num mês, que poderiam utilizar para trocar seu videocassete de 4 cabeças por um de 7. É assim que a riqueza é criada, e os estatólatras só podem é lamber os beiços, felizes por "distribuírem" alguns US$ 20 que, antes da computação pessoal existir, poderiam pagar algo como 0,000001% do preço de um computador. Uma lição maravilhosamente apresentada por Thomas Sowell, em seu grande artigo The Real Public Service:
"No começo do séc. XX, apenas 15% das famílias americanas tinham um sanitário com descarga. Nem um quarto tinha água corrente. Apenas 3% tinham eletricidade, e 1% tinha aquecimento central. Apenas uma família americana em mil possuía um automóvel.
Em 1970, a maioria absoluta dessas famílias americanas que viviam na pobreza tinha sanitários com descarga, água corrente e eletricidade. No fim do séc. XX, mais americanos estavam conectados à internet do que estiveram conectados a um cano de água ou esgoto no começo do século.
Mais famílias têm ar-condicionado hoje do que tinham eletricidade antes. Hoje, mais de metade de todas as famílias com rendimentos abaixo da linha de pobreza possuem um carro ou caminhão e têm um microondas.
Isso não sucedeu graças a políticos, burocratas, ativistas ou outros que prestam 'serviços públicos' que você deve admirar. Nenhuma nação palmilhou seu caminho da pobreza à prosperidade através da retórica de burocratas."
(Thomas Sowell, negro de família pobre que até os 5 anos tinha tão pouco contato com brancos que mal sabia que amarelo poderia ser uma cor de cabelo, sabe a quem deve ter hoje eletricidade, água encanada e ser o maior economista vivo do mundo.)
É preciso trocar de iPhone todo ano para dever algo de nossas vidas a Steve Jobs? É um erro um pouco hegeliano bem comum criticar Steve Jobs graças ao corporativismo da Apple Store, do iPod exigir o iTunes, ou criticar o Bill Gates porque o Windows Vista pede autorização do usuário a cada vez que se clica em um programa. Jobs e Gates parecem os próprios diabinhos que nos punirão no inferno com mensagens de erro e falta de mp3 do Metallica.
Poucos percebem que, sem suas empresas e seus programas problemáticos, não é que teríamos empresas melhores - não teríamos empresa alguma. Teríamos o velho videocassete agora com 20 cabeças.
Não existe um progresso pré-determinado apontando que haveria computação pessoal exatamente a partir de 1984 (aproveitando-se até do título do livro de George Orwell), e por sorte quem deu o pontapé inicial foi Steve Jobs com o Macintosh no famoso comercial no intervalo do Super Bowl. Não haveria computação visual com ícones sem as mentes por trás do Windows - portanto, não adianta achar o novo Ubuntu lindo para supor que não se deve nada à Microsoft. Um computador hoje seria objeto de estudo em mega universidades - e poderia se parecer morbidamente com os computadores de ficção científica antigos, que ocupavam uma sala inteira, não tinham mouse (geralmente, sequer uma tela), mas falavam.
É a idéia de inspiração nietzscheana exposta por Ortega y Gasset em seu indispensável A Rebelião das Massas: os coletivistas críticos do liberalismo acreditam que um carro (ou um computador) são eventos prontos da natureza, que nascem em uma árvore em que alguém teve a sorte de colhê-lo pronto anteriormente - e por isso deveria deixar de ser mesquinho e agora "distribuí-lo".
Por fim, a maior diferença entre Steve Jobs e Bill Gates foi o modelo de gestão implantado em cada empresa. A Microsoft até hoje gasta mais lidando com reclamações de clientes do que desenvolvendo seus produtos. É muito raro encontrar um grande fã da Microsoft, embora applemaníacos abundem.
Steve Jobs afirmava que as pessoas não estavam preparadas para lidar com um alto padrão de excelência (ao menos não em seu próprio trabalho, embora costumem exigir esse padrão no trabalho alheio). Jobs era famoso por poder demitir alguém numa conversa de elevador, se não estivesse preparado a responder uma pergunta a um problema que a empresa enfrentava.
Para os estatólatras, o protótipo do chefe carrasco e explorador. Para as pessoas que conhecem as causas das conseqüências que vêem ao seu redor, fica a pergunta: ou se trabalha rigidamente para quem aplicou a mesma disciplina a si próprio, mudou o mundo em diversas áreas em que atuou
(computação pessoal, telefonia, estúdios de animação, até periódicos), ou se acabariam trabalhando como gerentes de supermercado. Steve Jobs foi um explorador, ou nós é que exploramos alegremente seu trabalho? O desejo de ganhar o mesmo dinheiro que Jobs faturou em vida é legítimo - mas o mesmo tanto quanto o desejo de passar uma noite com a Sharon Stone não nos dá o direito de forçá-la a isso sem merecimento, só pela nossa vontade.
Restam os outros reclamões de Jobs, aqueles que mimimizam sobre sua companhia ter tido mão-de-obra escrava chinesa ou o raio que for. Como quase tudo o que temos e tocamos tem alguma mão de obra escrava chinesa. Curiosamente, são os mesmos que adoram chamar liberais de "exploradores", mas são incapazes de perceber que é apenas no liberalismo que a escravidão consegue desaparecer - enquanto o regime em que a escravidão torna-se até vantajosa (como expliquei, com a praxeologia da Escola Austríaca, sobre o caso da Zara) é, justamente, aquele em que o Estado domina a economia de cima abaixo, obrigando qualquer um que queira se alimentar a trabalhar para ele, e deixar que ele decida o quanto de gastos de sua máquina administrativa vai sobrar para lhe jogar as migalhas.
E, logicamente, essas pessoas escrevem de computadores pessoais, e acreditam nas palavras de Lula, de que pegou um país "que só tinha miserável e fez mais que Steve Jobs e esses aí..." porque implementou programas de distribuição de renda que nem foram criação sua. Tudo o que Lula fez foi aumentar impostos para jogar novas migalhas para a população carente - que, por sinal, só poderá trabalhar com computadores graças a um da Vinci moderno como Steve Jobs.
Não é só a indústria que sentirá falta de Steve Jobs. Todos aqueles que agradecem pelo que têm todo dia, pensando de onde aquilo surgiu até como foi parar em suas mãos, lamentam sua perda.
Era uma atitude compreensível, naqueles pré-históricos anos de 2001 em que nem 3% das pessoas que usavam internet no Brasil conheciam o Google. Quem não viveu essa época não sabe a dureza que era fazer trabalho copiado da internet sem Google, usando o Cadê (perguntem aos seus avós). Nós sabíamos muito bem que nossos professores nunca tinham ouvido falar em al-Qaeda, em Osama bin Laden, que não sabiam qual era a capital do Afeganistão (se nós não sabemos hoje, 10 anos de doses cavalares de internet depois). Mas nós fingíamos que eles eram algo como curandeiros sabe-tudo, ou que o que eles imaginavam que sabiam valia a pena mesmo assim.
ao líder espiritual Muhammad ibn Abd al-Wahhab, conseguindo dominar inclusive Meca e Medina. Essa doutrina, o wahhabismo, uma versão mais "pura" e guerreira do islã, seria dominante em muitos países, sobretudo os mais pobres e incultos - como o Afeganistão e o Iêmen, onde
70 foi reunindo recursos para os mujahedin afegãos lutando contra os soviéticos. Assim surge o primeiro mito, de que a al-Qaeda seria "criação da CIA". Mas se os EUA contribuíram para expulsar os soviéticos do Afeganistão, foi por um acordo com a Arábia Saudita, que financiava outro montante idêntico. O ideólogo saudita que assim planejou foi Abdullah Yusuf Azzam, com quem bin Laden estudou e, posteriormente, fundou a al-Qaeda (os dois romperiam apenas em 86, e Azzam seria morto em um atentado inexplicado em 89, possivelmente a mando do próprio bin Laden). Por sinal, o dinheiro americano não era distribuído diretamente aos sete grupos que compunham o movimento mujahedin, ficando a distribuição a cargo de autoridades sauditas e paquistanesas.
em solo americano. Como bem lembrou
seus gastos militares com a privatização do Exército, como demonstrei no
Se esta verdade é auto-evidente, é constantemente ignorada na visão política e econômica (se é que se pode falar desta última) da maioria das pessoas. É ignorada tanto nas teorias inflacionárias adoradas pelo governo e os intelectuais seus cupinchas, que imprimem moeda sem correspondente aumento na produção, quanto na expansão desenfreada do crédito, ou a teoria sobre o trabalho que o avalia pela sua produção individual focada na mão-de-obra, sem analisar as trocas decorrentes.
quanto a greve, que dispensa a burocracia, muitas vezes inócua, para lidar com uma lei que não é a da Constituição (que pode mudar com uma canetada), e sim uma inescapável lei de mercado: a greve atrapalha todo o sistema, o que gera uma pressão que nenhuma ameaça de processo pode igualar. Curiosamente, quem costuma organizar greves são os sindicalistas que mais ignoram o valor do trabalho como dinâmico e interdependente, e não individual.
E por que diabos devemos ir pras ruas? Em que cargas de realidade paralela esse é um jeito melhor de se fazer política?! O sentido que se quer com isso é claro: só se é um bom cidadão, antenado e inteligente, se sua opinião precisa ser apresentada a toda a população enquanto ela vai trabalhar, estudar ou fazer alguma outra coisa daquele rol de atividades que são denominadas vida. É uma imposição da atividade política até onde ela não é mais cabível. É o sentido em fechar ruas, em gritar, em impedir a passagem de transeuntes que, afinal, têm algo mais importante do que fazer do que não fazer nada no meio da rua, mas com o objetivo de "protestar".
O pressuposto é sempre aquele de que, se um político mija fora do pinico, deve-se criar uma situação tão insustentável para a população que ela não agüente e vá arrancá-lo do seu cargo pelo pescoço. Dialética histórico-materialista. Isso funcionou com o muro de Berlim, literalmente destruído na unha. Mas é uma falta de conhecimento histórico acreditar piamente que a abertura democrática, as Diretas Já ou o Impeachment de Collor se deram pelos universitários e sindicalistas matando aula e fazendo assembléias gerais. Isso é coisa de movimentos sociais. Movimentos sociais são apenas isso, afinal: pessoas que, se não conseguem o que querem, fecham estradas e avenidas, porque são mais importantes do que transporte de alimento e ambulâncias.
Eu quero melhorar o meu país, e por isso não vou fazer panelaço na rua. Existem coisas melhores do que um Trending Topic no Twitter? Existem, mas piquete não é uma delas. Não adianta organizarem um #forasarney no vão do MASP, e reclamarem que só foram 30 pessoas (que, misteriosamente, tinham algo para fazer, além de nada). O modelo está errado. Se a Dilma quer governar por decreto, eu quero um contra-decreto. Se na época de Collor talvez tenha sido preciso uma passeata para indicar a insatisfação popular (mesmo que fosse claro para qualquer um que tivesse uma conta poupança), hoje já não é mais. Se o governo da Dilma se desestabilizar, acho mais civilizado que notem a impossibilidade de mantê-la no cargo via Trending Topic do que fechando avenidas. Eu sou uma barricada de pijama.
A intelligentsia brasileira universitária saudava apenas cinco anos antes da queda do Muro de Berlim o tratado de Paul Kennedy, Ascensão e Queda das Grandes Potências, que profetizava como os EUA iriam ruir, pela dialética marxista que determina que o capitalismo não "se agüenta" depois de um tempo, graças a seu orçamento militar, e o mundo, capitaneado pelo terceiro mundo (não os BRICs) se curvaria ante à nova potência: a União Soviética.
Por falar em imperialismo, não só o período pré-Cortina de Ferro foi jogado na lata de lixo da História, como repetia tanto Trotsky: a década de 90 inteira também, misteriosamente, desapareceu. Na década de 90, a cada aula de Geografia e História ouvíamos ad nauseam que o maior perigo para o Brasil era uma tal de Alca, que iria tomar nossos empregos, diminuir o salário de quem ainda conseguisse se manter nos seus postos e escravizar toda a população aos desmandos do Império do Norte.
(sempre a confirmar o dito de Hayek sobre leis trabalhistas), foi espinafrado do posto de queridinho da esquerda mundial (id est, da esquerda que, até então, ainda não subira ao poder). Frei Betto, em mais de uma carta a Lula, onde o trata por amigo, lembra da decepção da esquerda mundial com a corrupção de Wałęsa - embora os mortos da mais próspera ditadura da América Latina sejam vítimas de um amigo que o mesmo Frei Betto defende até hoje - o Fidel Castro, que pode ter madado dólares para a campanha do PT em 2002 (como indicou o desastroso depoimento na CPI dos Bingos do economista vladimir Proleto, ex-assessor de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto envolvido nas denúncias), enquanto sua população vive com a menor desigualdade social da América Latina, com salários varianto de 12 a 20 dólares por mês (o mesmo que se obtém, no mínimo por mês, em 2 horas de trabalho na Califórnia).
envolvendo o ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz - um dos nomes petistas que, a despeito da consabida ignorância da população, hoje mal conseguiria se eleger como vereador nos velhos currais eleitorais de onde saem os caciques de sempre... e, de Maluf e Roberto Jefferson a Jader Barbalho e Renan Calheiros, contando com seus antigos inimigos Collor e Sir Ney, todos eles hoje são aliados do PT. Todos defendem um Estado participativo, e todos pleiteiam quem cuida das verbas de qual estatal.
A conta é clara, conforme mostra a reportagem: "Se a alíquota for aprovada, o IOF sobre uma despesa internacional de R$ 2.000 em cartão passará dos atuais R$ 7,60 para R$ 80." Diz também: "A medida visa evitar o endividamento excessivo, que pode elevar a inadimplência no futuro."
Endividamento significa apenas que o consumidor, afinal, pagará pelo que consumir. Quando o governo tenta definir o que a população deve consumir ou não, invariavelmente favorece um pequeno grupo que sairá favorecido. E aí, cai-se por terra todas as benesses que, concorde-se com o liberalismo ou não, são suas vantagens - e o preço dos produtos estar atrelado à sua qualidade é apenas a primeira delas. Já não se tem mais a garantia de que se crie um produto com baixo custo e/ou com menores custos de distribuição (ao contrário do que a esquerda pensa, os "exploradores" querem que até os pobres consumam, para poder lucrar mais): basta apenas fazer parte do "empresariado" que defende o partido no poder e usar a desculpa paradoxal que for.
Considere-se a anarquia do mercado comendo solta. Para botar uma ordem no incontrolável, o governo obrigaria (imposto tem uma etimologia clara) que uma parte do que é gasto fosse gasto com ele. Para piorar, em um sistema de capitalismo dessenvolvimentista como o nosso, o capitalismozinho mais mequetrefe já inventado, onde se consegue enriquecer mais em uma repartição pública do que descobrindo a pólvora, é favorecida uma classe de empresários que se livram da livre-concorrência, a marca mais indelével do capitalismo, ficando-se apenas com o preço que se paga pelas suas vantagens... mas sem as vantagens.
Por sinal, segundo o senador Cristovam Buarque, o que o governo tem de fazer é propiciar "a garantia de renda, moradia, empregos". Porque, afinal, se mantivermos a anarquia do mercado, apenas os ricos terão dinheiro. Ignore-se que todo aumento de renda na baixa população, por estímulo ou não, só funcione porque o governo parou de tentar influenciá-la em outras áreas: afinal, o que seria o Bolsa Família, se não houvessem indústrias com produtos baratos e de distribuição de baixo custo nas áreas onde ele é aplicado? De que serve o Bolsa Família, mesmo eleitoralmente, sem diminuição da inflação, que exige que o governo não torre a burra inteira?
Para Cristovam Buarque, Dilma Rousseff e nossa esquerda, um consumidor pagar por sua moradia em uma empresa especializada no assunto, que cuida de baratear custos justamente para cometer o pecado de lucrar mais do que outra, podendo vender mais, é um absurdo. O correto é dar o dinheiro para o governo, para ele saber quais empresas "nacionais" darem certo, por comissões de orçamento erigidas por deputados e seus assessores, colocando mais encargos nos produtos X (e, apenas por mera coincidência, fazendo com que esses encargos vão para os seus cofres) do que nos produtos Y e... bem, deu para acompanhar onde foi parar o dinheiro?